O Portugal de Abril é, afinal, um Portugal bafiento, em que o importante é ser de boas famílias.
Já tínhamos o pai do serviço nacional de saúde. Agora temos a filha do Salgueiro Maia.
Tudo o que vem à rede é Linguado. Mas o Linguado foi pescado. O que se aproveita está no Perspetivas (www.arturalcosta.wordpress.com).
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domingo, 26 de abril de 2015
domingo, 1 de fevereiro de 2015
Coisas que os gregos deram ao mundo
Os gregos deram a democracia, a filosofia e a literatura ao mundo (pelo menos, ao mundo ocidental) e estão agora a dar uma bela lição de dignidade. Esta ideia, tão repetida nos últimos tempos, parece-me justa, mas redutora.
Voltei a pensar nisto na última sexta-feira, no início de uma noite de temporal, quando viajava de regresso a casa desde Chaves e escutava, na rádio do Estado, um daqueles inúmeros programas indigentes de "debate político". Nele, uma senhora chamada Ana Sá Lopes, depois de várias intervenções em voz arrastada a dizer que o Syriza é o máximo, que António Costa anda lá perto e que o governo é formado por pessoas ignorantes, que não têm a noção da realidade do mundo em que vivem, recomendava a leitura de um clássico que nos vem desses extraordinários fundadores da democracia: a Odisseia, de Homero, "um livro antigo, já com milhões de anos".
Descontando a velha ideia romântica que temos da "democracia" grega, ou melhor, ateniense - um sistema em que havia os cidadãos e os outros, os que não tinha direitos, como os estrangeiros, os escravos e as mulheres - pergunto-me porque não exaltamos hoje outras coisas que os gregos dessa mesma época nos deixaram e que a maioria de nós aprendeu na escola.
Em Esparta, uma das mais poderosas cidades-estado da Grécia antiga, as pessoas pertenciam ao Estado desde o nascimento até à morte. Os recém-nascidos eram examinados por um conselho de anciãos, que mandava eliminar os que fossem portadores de deficiência física ou mental ou até os que não fossem suficientemente robustos. Esta antiga e sofisticada forma de eugenia viria a ser utilizada pelos nazis na Alemanha, já no século vinte, mas estes, ao contrário dos gregos, não têm boa imagem junto da opinião pública. Acrescento ainda que as crianças espartanas eram espancadas pelos pais para se tornarem mais fortes (uma prática que ainda hoje muitos especialistas em educação que aparecem na televisão ou escrevem nos jornais não desdenham de todo) e que as mulheres espartanas eram educadas quase exclusivamente para ter filhos robustos, adquirindo o direito de casar e parir só após uma experiência com um escravo especializado - da união resultava uma criança que era imediatamente morta, tal como o escravo, que era abatido aos trinta anos.
Já da mais sofisticada Atenas, a verdadeira pátria da democracia só para alguns, nem vale a pena recordar a aceitação, jurídica e social, da pederastia e da pedofilia. Vá lá saber-se porquê, este hábito dos grandes cidadãos, alguns deles ainda hoje reconhecidos como génios, perdeu algum do seu prestígio, embora, como vemos frequentemente em Portugal, continue a ser praticado pelo povo e pelas elites. E, por falar em elites e em grandes homens, vale a pena recordar que a escravatura foi uma das bases do progresso cultural e material dos gregos (como de todos os povos que a praticavam, incluindo os portugueses de antanho). Como muitos historiadores demonstram, a existência de escravos permitia aos helénicos dedicar-se às coisas do espírito (e a seduzir petizes, já agora). Pois não escreveu, no seu opúsculo Política III, o imenso Aristóteles que "Quem pode usar o seu espírito para prever é naturalmente um comandante e naturalmente um senhor, e quem pode usar o seu corpo para prover é comandado e naturalmente escravo; o senhor e o escravo têm o mesmo interesse”?
Ah!, a Grécia Antiga, essa Mãe de todas as virtudes e de todos os vícios...
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Onde estavas no 25 de Abril?
A mim, ninguém pergunta, mas eu respondo.
O dia 25 de abril de 1974, que se transformou no 25 de Abril, era uma quinta-feira, parece-me, dia de ir à escola. Eu andava no Ciclo Preparatório e creio que a primeira aula era de matemática, mas não tenho a certeza. Seria, provavelmente, num dos dois pavilhões pré-fabricados da Escola Preparatória da então vila do interior, talvez com muita chuva a transformar o caminho em lama.
Depois disso, muitas coisas mudaram no ensino. As escolas são melhores, mas ainda há muitos pré-fabricados, ao lado de instalações de luxo, cheias de aváques. Os professores são gente tão triste como antigamente. Os ministros são comentadores e os comentadores ministros, o que é uma grande diferença para esse antigamente. Os alunos parecem-me mais espertos, mas mais morcões, uma contradição, mas uma verdade.
No interior, as vilas agora são cidades, mas já não há escolas e já não há alunos. Mas tudo vai bem, porque o governo faz umas "entorses" e o dinheiro grátis continuará a chover em Lisboa.
Muita coisa mudou depois do 25 de Abril, mas "o Marquês" continua a matar o país.
O dia 25 de abril de 1974, que se transformou no 25 de Abril, era uma quinta-feira, parece-me, dia de ir à escola. Eu andava no Ciclo Preparatório e creio que a primeira aula era de matemática, mas não tenho a certeza. Seria, provavelmente, num dos dois pavilhões pré-fabricados da Escola Preparatória da então vila do interior, talvez com muita chuva a transformar o caminho em lama.
Depois disso, muitas coisas mudaram no ensino. As escolas são melhores, mas ainda há muitos pré-fabricados, ao lado de instalações de luxo, cheias de aváques. Os professores são gente tão triste como antigamente. Os ministros são comentadores e os comentadores ministros, o que é uma grande diferença para esse antigamente. Os alunos parecem-me mais espertos, mas mais morcões, uma contradição, mas uma verdade.
No interior, as vilas agora são cidades, mas já não há escolas e já não há alunos. Mas tudo vai bem, porque o governo faz umas "entorses" e o dinheiro grátis continuará a chover em Lisboa.
Muita coisa mudou depois do 25 de Abril, mas "o Marquês" continua a matar o país.
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Em Abril democratas mil
Só para recordar o que pensam alguns "militares de Abril" dessa coisa de eleições, deputados, parlamentos...
(Nem todos os "militares de Abril" pensam assim, nem todos os que pensam assim são "militares de Abril". Não há mal nenhum em pensar assim, mas acho que, à partida, desqualifica a pessoa para "discursar" no Parlamento; a menos que seja para tomar o poder à paulada, ainda que simbolicamente. E se é fácil concordar que é um imperativo derrubar um poder ilegítimo à força, já quando isso significa substituí-lo por outro igualmente ilegítimo a coisa me parece mais discutível. Especialmente se for contra a vontade de muitos cidadãos, talvez mesmo a maioria, e violar as leis e a Constituição em vigor).
(Nem todos os "militares de Abril" pensam assim, nem todos os que pensam assim são "militares de Abril". Não há mal nenhum em pensar assim, mas acho que, à partida, desqualifica a pessoa para "discursar" no Parlamento; a menos que seja para tomar o poder à paulada, ainda que simbolicamente. E se é fácil concordar que é um imperativo derrubar um poder ilegítimo à força, já quando isso significa substituí-lo por outro igualmente ilegítimo a coisa me parece mais discutível. Especialmente se for contra a vontade de muitos cidadãos, talvez mesmo a maioria, e violar as leis e a Constituição em vigor).
domingo, 16 de março de 2014
Este cidadão vive perplexo
Comentando a atividade política portuguesa, já quase vista dos antípodas.
1.
Manifestamente, o Manifesto dos 74, que podiam ser milhares, parece-me ser inútil e apenas se justificar porque alguns precisam de se mostrar. Reestruturação, renegociação, whatever, da Dívida Pública é, como no caso das Dívidas Privadas, um processo sempre aberto e que, aliás, Portugal e a Troica/ União Europeia ainda há alguns meses praticaram (diminuindo o juro aplicado ao empréstimo a Portugal).
Parece-me, também, o pretexto para um certo segmento da nossa sociedade faça a sua guerrilha, acusando os "outros" de "extremarem" posições. Esta é a ladainha da moda. E as posições, claro, extremam-se. Em Portugal, são sempre extremas, trate-se do que se tratar.
Nos últimos dias contei pelo menos quarenta e dois (mas devem ser setenta e quatro) artigos em jornais escritos por celebridades que dizem coisas como "Não assinei, mas podia ter assinado... Eu queria tanto ter assinado... Eu assinei e... O que o Manifesto diz é que... Apoio completamente... Só não vê que... Querem censurar-nos..."
Ora, parece-me um pouco excessivo este cuidado com explicações. Se é tão evidente o que lá está escrito, porque precisa o raio do Manifesto de tantas justificações?
2.
Também se discutiu no Parlamento o projeto de lei sobre coadoção, ou algo que o valha. Eu sou a favor de ser tudo permitido, sou sinceramente libertário, mas não é esse o assunto que me traz aqui, e sim a questão da liberdade de voto dos deputados. Esta semana foi quente em termos do julgamento público que se faz dos que votaram contra a proposta de lei do PS. Ainda hoje li, escrito por um colunista que não conheço de lado nenhum, que "a consciência e a escala de valores de alguns dos nossos deputados são hipotecáveis e manipuláveis". Não me merecem grande respeito as opiniões de alguém que, pretendendo-se merecedor da leitura, só deu agora conta disto, mas estas palavras trazem à discussão um assunto que qualquer português acarinha (fazendo a sua opinião vacilar em função do tema): a liberdade de voto dos deputados vs a "disciplina" ou a "orientação firme" desse voto pelas estruturas partidárias.
A minha perspetiva é clara: ou mudam o sistema eleitoral, permitindo que os eleitores, quando votam, saibam em quem estão a votar (círculos uninominais, que não me são muito simpáticos; listas sem ordenação, permitindo-nos ordenar os candidatos pela nossa preferência) ou, mantendo-se o atual sistema, não aceito a liberdade de voto como princípio (e daí concluo que não é difícil diminuir o número de deputados no Parlamento).
3.
Dou um exemplo edificante. A deputada Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, foi eleita em 2011 pelo círculo de Lisboa. Estava na posição décima não sei quantas, e o Bloco elegeu três deputados nesse círculo. Mariana, a suplente das suplentes das suplentes, era uma estrela em ascensão no Bloco quando, em setembro de 2013, foi para o Parlamento, dada a estranha renúncia da dezena de putativos deputados do Bloco que, tendo-se candidatado, não aceitaram o lugar.
Este é um exemplo extremado, mas há muitos outros, noutros partidos. Digam-me, então: algum eleitor terá analisado o currículo, as opiniões que defendia a título pessoal, a idoneidade moral, a preparação cívica, a coerência do percurso político, da deputada Mariana? A sério? Porque há de reconhecer-se a um deputado qualquer, eleito num qualquer lugar de uma lista que nem sequer consta dos boletins de voto, o direito e o dever de votar no Parlamento de acordo com a sua consciência? Quem lhe passou esse cheque em branco? A quem prestará contas esse deputado?
Parece-me ser assunto que nunca é devidamente aprofundado quando se trata de soltar palavras fáceis e indignações bacocas.
Diga o que disser a Constituição (que aliás foi aprovada em 1976 sem liberdade de voto dos deputados).
domingo, 9 de fevereiro de 2014
No limite da dor
No limite da dor é um programa que a rádio Antena 1 transmite aos sábados, às 09h08, e repete, na mesma noite, às 23h08. Apresenta-se assim:
"No Limite da Dor" é uma série de programas com testemunhos de vários ex-presos políticos que foram torturados pela PIDE e submetidos a todo o tipo de torturas: espancamentos muito violentos, privação do sono, isolamento, chantagem emocional.Podem ouvir-se aqui os vários programas. Eu ainda não ouvi muito, apenas uns bocadinhos, mas a Lu recomenda, e ela tem ouvido para estas coisas.
São pessoas de diferentes formações políticas: do PCP à FAP, passando pelo MRPP e pelos Católicos Progressistas.
Todos, cada um à sua maneira, queriam um país livre e melhor.
Alguns nunca prestaram declarações à polícia política, outros acabaram por falar quer em nomes de outros companheiros, quer sobre a organização a que pertenciam.
Nas conversas com Ana Aranha, estes homens e mulheres vão ao fundo dessas memórias, um exercício nem sempre fácil e por vezes doloroso.
Falam dos sofrimentos, dos medos, mas também da coragem que sentiram na época e da forma como têm vivido e convivido com esta parte do seu passado.
Independentemente do que fizeram, antes e depois do 25 de Abril, estas pessoas, o seu exemplo deve ser recordado. É bom mostrá-lo aos jovens de hoje (até aos cinquenta anos, como eu), que me parece terem-se rapidamente acomodado à vida com liberdade de consumo e se esqueceram do horrível passado recente da sociedade portuguesa. Esqueceram ou nunca o conheceram verdadeiramente, porque eram muito jovens para lhe dar importância. Creio que nos custa a entender que o que ganhámos nos últimos quarenta anos tem tanto de milagroso como de excessivo.
Hoje, como alguém disse, as crianças vão calçadas para a escola e qualquer um pode dizer o que lhe apetece, o que é excelente. O pior é que as crianças também levam telemóveis e sapatilhas de marca americana fabricadas por crianças escravas no Vietname e que o que alguns dizem ultrapassa em muito os limites da decência.
E tudo isso é um insulto à memória destes que sofreram tanto para serem, e para sermos, livres.
sábado, 21 de setembro de 2013
Efemérides
1. Passaram 105 dias desde que entreguei no IMTT o pedido de renovação da minha carta de condução, pagando a módica quantia de muitos euros entre taxas, consultas para atestados médicos e tempo perdido. Ontem, recebi uma carta registada do IMTT, presumindo que seja para ir levantar a dita. Parabéns ao IMTT, esse símbolo da modernidade e eficiência da administração pública lisboeta, cuja sede nacional é na Av. Fontes Pereira de Melo.
| (c) Paulo Araújo |
3. Passam hoje 34 dias desde que a televisão pública do governo de Lisboa, como muita outra imprensa, limpou o título da notícia sobre as declarações do calhorda que me envergonha, tornando-as quase num apelo cívico de um democrata decente. Obrigado, Manuela Moura Guedes!
| Comissão Europeia: Education Inequality across EU Regions. NESSE 2012. |
Blame it on Crato, though.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Páginas imortais 51: Constituição da República Portuguesa
A versão atual (2005) da Constituição da República Portuguesa, após 7 revisões, diz:
PREÂMBULO
A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista.Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa.
A Revolução restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais. No exercício destes direitos e liberdades, os legítimos representantes do povo reúnem-se para elaborar uma Constituição que corresponde às aspirações do país.
A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.
A Assembleia Constituinte, reunida na sessão plenária de 2 de Abril de 1976, aprova e decreta a seguinte Constituição da República Portuguesa:
----------------------------------------------------------------------------------------------------
... aaaaah! É exatamente igual, não é? Nem uma vírgula tiraram ao socialismo e os militares continuam a interpretar os sentimentos mais profundos do povo português...
Esta é, de uma forma muito peculiar, uma verdadeira PÁGINA IMORTAL!
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Holly cows!
![]() |
| Steve Napierski (http://www.pierski.com/) |
A democracia está em perigo! Vem aí a ditadura! O fascismo bate à porta! A Constituição é sagrada!
Bom, talvez a Constituição que nos impele pela via do socialismo e define os objetivos da política industrial e comercial seja sagrada. Mas os juízes do TC e o próprio órgão, creio que basta pensar um bocadinho para entender que não podem ser intocáveis, a bem da verdadeira democracia. São, na realidade, uma cena bastante discutível...
O juízes do TC são, em primeiro lugar, juízes. Sim, por muito bons que sejam, podem perfeitamente ser daqueles que acham que se pode ir trabalhar bêbedo ou que bater na mulher não é propriamente um crime.
Depois, não constituem um órgão de soberania democrático. São eleitos pelo Parlamento, ou seja, indiretamente, são resultado de negociatas entre os partidos do costume (apenas três dos treze não resultam deste método, sendo escolhidos pelos restantes dez). São "inamovíveis" (e "irresponsáveis") e o seu mandato não é um mandato, é uma carreira: nove anos!
Por isso, as suas decisões começam por ser muito discutíveis logo lá dentro. Eles "interpretam" a Lei e a Constituição, e são frequentes os casos em que um, dois, cinco, seis, votam vencidos. Normalmente, para entender as votações, basta ir ver quantos foram escolhidos pelo PS e quantos foram pelo PSD. Ou seja, em cada decisão pode estar uma costela de juiz boçal, incompetente, corrupto, a defender interesses ou a obedecer a ordens. Porque não? São homens (e mulheres), são funcionários públicos, têm a sua "visão pessoal" do mundo e das coisas.
| Às vezes são 13. Desta eram 7. Parece que os do PSD estavam de férias. Foto: Nuno Ferreira Santos, Público. |
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Bruscamente neste verão...
Eis que, de repente, passa a ser um perigo para a democracia haver um canal de TV e de rádio nas mãos de um governo democraticamente eleito.
Eis que, de repente, o tonitruante PS declara que "não aceitamos que um governo que tem demonstrado, ao longo dos anos, não ser capaz de gerir nenhum órgão de comunicação social, venha deitar a mão à rádio e à televisão para subverter os critérios jornalísticos".
Eis que, de repente, o volúvel CDS se manifesta contra a regionalização da RTP pela "necessidade de
Eis que, de repente, o tonitruante PS declara que "não aceitamos que um governo que tem demonstrado, ao longo dos anos, não ser capaz de gerir nenhum órgão de comunicação social, venha deitar a mão à rádio e à televisão para subverter os critérios jornalísticos".
Eis que, de repente, o volúvel CDS se manifesta contra a regionalização da RTP pela "necessidade de
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Um prémio na corrente
A escritora Hélia Correia venceu o Prémio Casino da Póvoa na 14.ª edição do festival literário Correntes d'Escritas, com o livro de poesia «A Terceira Miséria», editado pela Relógio d'Água.O livro foi apresentado como uma homenagem à Grécia e «um pedido de socorro» perante «a pressão impensável» que este país – como o nosso – está a sofrer. É uma opinião, que respeito, mesmo não concordando - não há pressão, há braço de ferro. Já não acho tão interessante que a escritora desconfie que lhe deram o prémio por razões políticas, e não literárias. Cito-a citada na imprensa:
Ao receber o prémio, Hélia Correia assumiu que A Terceira Miséria é «uma homenagem à [sua] Grécia», e admitiu que esse facto pode ter pesado na escolha do júri.O júri do prémio considerou que o livro, «mais do que um conjunto de poemas, é um longo poema construído a partir da matriz clássica europeia para refletir sobre questões fundamentais do Ocidente». Refletir é bom, mas porquê esta forma saudosista e desesperada?
Para onde olharemos? Para quem?Que a Grécia Clássica seja o farol da vida de Hélia Correia, de acordo. Havia nessa época coisas muito fixes, como o politeísmo e muito espaço no planeta. Mas que seja o modelo para refletir sobre a nossa sociedade atual, tenho mais dúvidas. Vale sempre a pena recordar os direitos que (não) tinham, na democracia grega clássica, os escravos, os metecos (estrangeiros) e as mulheres (de Atenas) para compreender que o futuro não vai por aí.
Certo é que Atenas se mantém oculta
E de algum modo intacta, por debaixo
Do alcatrão, do ferro retorcido.
Certo é que nunca ressuscitará
Visto que nada ressuscita.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
O Povo é quem mais ordena
Convenceram-me. Mil notícias na imprensa e treze mil postes nas redes sociais não me deixam dúvidas: a Islândia é que está a dar.
A malta mais da esquerda xuxialista partilha frases do Presidente da Islândia ("não pode haver fome num país com mais ovelhas que pessoas e mais canas de pesca que telemóveis" é a favorita). Os políticos de esquerda e direita, que vogam na corrente do que pensam ser o voto popular, exaltam o "milagre islandês". O próprio FMI se verga perante a convicção daquele Povo. Os indignados, no intervalo de duas twitadas, indignam-se, como é de sua condição: os media, controlados pelo capital internacional, estão a esconder o que se passa na Islândia! Não querem que os cidadãos do mundo saibam que há um caminho alternativo!
Estou a ser irónico, já devem ter reparado. Não tenho grande admiração pelos ideais xuxialistas, nem pelos políticos, pelo FMI ou pelos indignados. Mas tenho muito pelos islandeses, e gostava que todos pensassem um pouco antes de fazer comparações.
Que pensassem, por exemplo, que na Islândia há verdadeiramente um Povo formado por gente independente (sjálfstætt fólk, como lhes chamou Haldór Laxness). Povo que, pelos vistos, prefere ter canas de pesca a ter telemóveis. Noto aqui uma diferença para o Povo português? Noto, mas parece que sou só eu.
Outra diferença: os islandeses preferem não ter Forças Armadas regulares e afetam 0,5% do seu PIB à Defesa. Em Portugal, orgulhosos da nossa força e presença no mundo (mais concretamente na Guiné-Bissau), vamos com 1,1% e a caminho (objetivo) dos 2%, não contando com os submarinos, blindados e aviões. Mas as nossas FA são a nossa reserva moral, a esperança do padre Torgal para restaurar a Democracia. Não lhes toquem!
Por falar no padre guerreiro: na Islândia, cerca de 60% da população está mais ou menos a borrifar-se para as religiões em geral. Mas os que gostam da sua missinha são protestantes (só 2,5% são católicos). Ao menos os padres protestantes casam, têm família, vivem na comunidade e não servem um Papa qualquer, que vive em palácios enquanto o Povo morre de fome.
Querem mais diferenças? Pois aqui vai uma, chocante: o Povo islandês Rasgou a Constituição. Crime! Crime! Quem é o Povo para querer fazer uma NOVA Constituição??? Aqui em Portugal leva-se logo com quinhentos mil funcionários públicos, vinte velhinhos indignados, os pais, os filhos e os parasitas da Constituição e do Estado Social, os constitucionalistas, os comunistas, os socialistas...
O Povo é quem mais ordena? Só se for na Islândia, pois por cá o Povo é uma massa histérica, sempre à espera de ouvir His Master's Voice e já prontinho a votar pêésse.
A malta mais da esquerda xuxialista partilha frases do Presidente da Islândia ("não pode haver fome num país com mais ovelhas que pessoas e mais canas de pesca que telemóveis" é a favorita). Os políticos de esquerda e direita, que vogam na corrente do que pensam ser o voto popular, exaltam o "milagre islandês". O próprio FMI se verga perante a convicção daquele Povo. Os indignados, no intervalo de duas twitadas, indignam-se, como é de sua condição: os media, controlados pelo capital internacional, estão a esconder o que se passa na Islândia! Não querem que os cidadãos do mundo saibam que há um caminho alternativo!
Estou a ser irónico, já devem ter reparado. Não tenho grande admiração pelos ideais xuxialistas, nem pelos políticos, pelo FMI ou pelos indignados. Mas tenho muito pelos islandeses, e gostava que todos pensassem um pouco antes de fazer comparações.
Björk: Wanderlust
Que pensassem, por exemplo, que na Islândia há verdadeiramente um Povo formado por gente independente (sjálfstætt fólk, como lhes chamou Haldór Laxness). Povo que, pelos vistos, prefere ter canas de pesca a ter telemóveis. Noto aqui uma diferença para o Povo português? Noto, mas parece que sou só eu.
Outra diferença: os islandeses preferem não ter Forças Armadas regulares e afetam 0,5% do seu PIB à Defesa. Em Portugal, orgulhosos da nossa força e presença no mundo (mais concretamente na Guiné-Bissau), vamos com 1,1% e a caminho (objetivo) dos 2%, não contando com os submarinos, blindados e aviões. Mas as nossas FA são a nossa reserva moral, a esperança do padre Torgal para restaurar a Democracia. Não lhes toquem!
Por falar no padre guerreiro: na Islândia, cerca de 60% da população está mais ou menos a borrifar-se para as religiões em geral. Mas os que gostam da sua missinha são protestantes (só 2,5% são católicos). Ao menos os padres protestantes casam, têm família, vivem na comunidade e não servem um Papa qualquer, que vive em palácios enquanto o Povo morre de fome.
Querem mais diferenças? Pois aqui vai uma, chocante: o Povo islandês Rasgou a Constituição. Crime! Crime! Quem é o Povo para querer fazer uma NOVA Constituição??? Aqui em Portugal leva-se logo com quinhentos mil funcionários públicos, vinte velhinhos indignados, os pais, os filhos e os parasitas da Constituição e do Estado Social, os constitucionalistas, os comunistas, os socialistas...
Sigur Rós: Samskeyti
O Povo é quem mais ordena? Só se for na Islândia, pois por cá o Povo é uma massa histérica, sempre à espera de ouvir His Master's Voice e já prontinho a votar pêésse.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Suspense democrático
Por isso, nas últimas eleições legislativas havia um imperativo político e moral: o PS e o PSD deviam governar juntos, já que também nos governaram até este buraco. Mesmo não votando em qualquer deles, muitos votámos convencido que devia ser assim.Se houve tempo certo para um governo de salvação nacional, esse foi o tempo. Seria, é certo, um parêntese na democracia, mas aceitável para a salvar.
2. Mas, mais uma vez, os nossos políticos não estiveram à altura. Uns foram arrogantes, outros traiçoeiros, e todos eles pensaram em continuar por aí.
Cavaco (e aquele grupo de indivíduos que compõem o chamado Conselho de Estado e que representam bem as gorduras e os tumores do nosso sistema político-social) foram, mais uma vez, gente pequena. Quando se pedia, pelo menos, um desafio público à responsabilidade dos dois partidos, preferiram a solução mesquinha, a que mais lhes interessa para defender os seus "direitos adquiridos": uma artificial distinção entre "socialistas" e "liberais", mantendo a ilusão de que neste modelo de governação iníquo há duas alternativas de Poder.
3. Para os figurões foi business as usual. Entregando a frágil governação nas mãos de alguns inconscientes ou mal intencionados e preparando a fuga cobarde dos socialistas às suas responsabilidades. Deixando a oposição cair nas ruas, com as pessoas manipuladas pelos mesmos "interesses" que nos parasitam há décadas. Proclamando um criminoso e hipócrita apoio à fúria do Povo que se julga faminto (mas a quem faltou, ainda, apenas o lanche).Um governo de salvação nacional, agora? Seria desligar a democracia, ou ligá-la à máquina - o que é um risco, com o Serviço Nacional de Saúde falido. Seria, como disse um dia uma velha senhora, suspender a democracia.
4. Dizem-nos as vozes socialistas de ontem e de hoje que atravessamos o mais perigoso dos tempos, que o país está de tanga e a democracia em crise.Os que o dizem sabem bem que esses tempos perigosos não começaram agora, porque estes são e foram os seus tempos. Sempre os vimos por aí, de fraque, participando neste festim nu.
Não podemos aceitar que lavem as mãos.
domingo, 16 de setembro de 2012
Desaforismos
Sobre o desaforo
São quase todos culpados, alguns são até criminosos, mas atrevem-se a vir sentenciar sobre a situação social, política e económica. O Povo, cúmplice, consente. Aplaude.
Sobre o nojo
Pessoas como Vítor Constâncio, Manuela Ferreira Leite, Augusto Santos Silva, Bagão Félix e os outros que governaram o afundanço nacional deveriam remeter-se a um período de nojo (luto). Ao sair tão cedo da toca só conseguem meter nojo (causar asco ou repugnância).
Sobre a mensagem e os mensageiros
Maus mensageiros fazem má a boa mensagem. Os avisos seriam úteis, mas nestas bocas são fúteis.
Sobre a cobardia hipócrita
"Esse memorando foi assinado por um governo do PS, mas Pedro Passos Coelho esteve mais envolvido nesse memorando do que eu, que não tive nenhum envolvimento". [António José Seguro, estratega do século XXI, em entrevista ao Público]
Sobre o medo
Os que chamam "sobressalto democrático" às manifestações de ontem lá terão as suas razões para se assustar.
Sobre a agenda neoliberal
O PSD quer obrigar empresas a reinvestir valor poupado com TSU “estabelecendo exigências de resultados, impondo condicionalismos como a proibição de distribuir lucros pelos acionistas ou aplicar constrangimentos para impedir que sejam canalizados para áreas que não contribuem para o desenvolvimento da empresa.” [Teresa Leal Coelho, vice-presidente da bancada "neoliberal"].
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Quem vê TV...

Do que dizem e escrevem entendo duas coisas.
Primeira, que há quem fale de democracia, mas exija informação controlada por um Estado (ou seja, por um governo e pelas corporações que ele representa). O horror total, em democracia ou fora dela.
Segunda, que há quem ache que o Povão, para ser educado, aprender a ser cidadão e sentir-se português tem de ver televisão. De outra forma não é capaz. Talvez o modelo de sociedade que temos fomente atitudes passivas e meramente reativas, mas nem todos queremos ser assim.Há que resistir: a televisão é o melhor instrumento que esta gente tem de controlar massas acéfalas. Queremos ler e conversar, não ver TV!
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Palavras no divã de Freud: ideologia
Na política e na comunicação social há, neste momento, duas palavras que andam pelas ruas da amargura.
Uma delas é "Constituição", na qual parece que não se pode tocar e deixa o país nas mãos dos "constitucionalistas", gente de que falei aqui em posta antiga e que é ainda menos democrática (quem os elegeu?) e menos confiável do que o António Borges (veja-se que o Tribunal Constitucional acaba de tomar outra decisão sem unanimidade, sobre um referendo local em Crestuma...).
A outra é "ideologia", e é dela que quero tratar.
Qualquer portuga sabe, e comenta no café ou no forum online do seu jornal favorito, que o atual governo é uma grande merda e anda a tramar o país por razões "ideológicas". Qualquer politólogo televisionado ou professor universitário disfarçado de politólogo televisionado começa por dizer que o governo (o Borges) faz o que faz porque adotou uma "ideologia".
O governo quer privatizar serviços públicos (o mais grave, parece, é o da televisão, esse bem essencial)? Ideologia "neoliberal". O governo (e a maioria parlamentar) quer mudar a lei laboral? Ideologia! O governo quer os funcionários públicos a produzir e quer moralizar a prática da avaliação? Ideologia!
Para não ir mais longe, as crónicas de hoje de André Freire e de António Jacinto Pascoal no Público, de André Macedo (que fala em "reumatismo ideológico!) no Diário de Notícias, de João Lemos Esteves no Expresso ou de José Junqueiro no Jornal de Negócios esclarecem-nos: o governo atual fica manchado por ter uma "ideologia". Coisa horrorosa!
Eu sou do tempo em que toda a nossa vida era uma imensa ideologia. Veio o Álvaro, veio o Mário Soares, pá, e tudo era socialismo, ou via para o socialismo, e morte ao fascismo, e pá, nós e a social pá - democracia, esses trotskistas, pá...
Depois vieram Mário Soares e a velha guarda do Bloco Central e meteram o socialismo na gaveta. Pragmatismo e tecnocracia, mandados pela Europa e pelo capitalismo corrupto internacional. Muitos destes políticos estão ainda no ativo, podem ser identificados e responsabilizados pela contaminação do sistema democrático, embora hoje se anunciem como "reserva moral da Nação". Por todo o mundo ocidental, aliás, se assistiu a esse fenómeno.
Ainda assisti ao ressurgimento da nostalgia pelas ideologias (em finais do ano passado, até veio o Mário Soares e publicou um livro chamado "Um político assume-se – Ensaio político e ideológico"). Os nossos politólogos televisionados citavam (quando citavam, porque normalmente preferem fazer parecer que as ideias são deles), com olhar sonhador, outros tempos, os Miterrands e os Kohls, as Thatchers e os Sá Carneiros...
E agora, isto? O governo tem uma "agenda ideológica"? O que ontem exigiam, hoje é crime, é anátema?
E o que irão dizer então da vergonhosa "universidade de verão" do Partido Socialista, em que os futuros governantes socialistas (mais dia, menos dia...) vão aprender a ser políticos nos braços incorpóreos de Aristóteles, Marx, Hume e Tocqueville? Virá António Costa a liderar um governo com uma "agenda ideológica" (aparentemente socialista, mas nunca se sabe)?
Porque não assumem claramente estes porta-vozes que o que incomoda não é haver uma agenda ideológica, mas essa agenda parecer (mas sem o ser) o que chamam neoliberal? E que, havendo o risco de tal agenda vir a diminuir o número e o caudal das tetas do Estado onde todos querem chupar, convém mudar tudo, para que tudo permaneça igual?
Uma delas é "Constituição", na qual parece que não se pode tocar e deixa o país nas mãos dos "constitucionalistas", gente de que falei aqui em posta antiga e que é ainda menos democrática (quem os elegeu?) e menos confiável do que o António Borges (veja-se que o Tribunal Constitucional acaba de tomar outra decisão sem unanimidade, sobre um referendo local em Crestuma...).
A outra é "ideologia", e é dela que quero tratar.
Qualquer portuga sabe, e comenta no café ou no forum online do seu jornal favorito, que o atual governo é uma grande merda e anda a tramar o país por razões "ideológicas". Qualquer politólogo televisionado ou professor universitário disfarçado de politólogo televisionado começa por dizer que o governo (o Borges) faz o que faz porque adotou uma "ideologia".
O governo quer privatizar serviços públicos (o mais grave, parece, é o da televisão, esse bem essencial)? Ideologia "neoliberal". O governo (e a maioria parlamentar) quer mudar a lei laboral? Ideologia! O governo quer os funcionários públicos a produzir e quer moralizar a prática da avaliação? Ideologia!
Para não ir mais longe, as crónicas de hoje de André Freire e de António Jacinto Pascoal no Público, de André Macedo (que fala em "reumatismo ideológico!) no Diário de Notícias, de João Lemos Esteves no Expresso ou de José Junqueiro no Jornal de Negócios esclarecem-nos: o governo atual fica manchado por ter uma "ideologia". Coisa horrorosa!
Eu sou do tempo em que toda a nossa vida era uma imensa ideologia. Veio o Álvaro, veio o Mário Soares, pá, e tudo era socialismo, ou via para o socialismo, e morte ao fascismo, e pá, nós e a social pá - democracia, esses trotskistas, pá...
Depois vieram Mário Soares e a velha guarda do Bloco Central e meteram o socialismo na gaveta. Pragmatismo e tecnocracia, mandados pela Europa e pelo capitalismo corrupto internacional. Muitos destes políticos estão ainda no ativo, podem ser identificados e responsabilizados pela contaminação do sistema democrático, embora hoje se anunciem como "reserva moral da Nação". Por todo o mundo ocidental, aliás, se assistiu a esse fenómeno.
Ainda assisti ao ressurgimento da nostalgia pelas ideologias (em finais do ano passado, até veio o Mário Soares e publicou um livro chamado "Um político assume-se – Ensaio político e ideológico"). Os nossos politólogos televisionados citavam (quando citavam, porque normalmente preferem fazer parecer que as ideias são deles), com olhar sonhador, outros tempos, os Miterrands e os Kohls, as Thatchers e os Sá Carneiros...
E agora, isto? O governo tem uma "agenda ideológica"? O que ontem exigiam, hoje é crime, é anátema?
E o que irão dizer então da vergonhosa "universidade de verão" do Partido Socialista, em que os futuros governantes socialistas (mais dia, menos dia...) vão aprender a ser políticos nos braços incorpóreos de Aristóteles, Marx, Hume e Tocqueville? Virá António Costa a liderar um governo com uma "agenda ideológica" (aparentemente socialista, mas nunca se sabe)?
Porque não assumem claramente estes porta-vozes que o que incomoda não é haver uma agenda ideológica, mas essa agenda parecer (mas sem o ser) o que chamam neoliberal? E que, havendo o risco de tal agenda vir a diminuir o número e o caudal das tetas do Estado onde todos querem chupar, convém mudar tudo, para que tudo permaneça igual?
sábado, 25 de agosto de 2012
Serviço púbico
1. A notícia da semana é o modelo de "privatização" da RTP anunciado pelo Governo (ele próprio privatizado no mesmo modelo, com concessão ao António Borges).
Acho ridículo que gente crescida se farte de discutir, como grande calamidade, o fim da propriedade de canais de rádio e TV por um Estado (coisa que eu acho própria de ditaduras e não de democracias). Indigente como é esta Pátria e esta Gente, a opinião púbica está-se a cagar sobre o fim dos apoios ao Livro ou à Música; borrifa-se para o fim dos apoios do Instituto Camões a Centros de Língua Portuguesa pelo mundo fora; etc. Mas a nossa TV, isso não! Como iríamos cultivar-nos (sem dor e sem esforço)???
2. Chamem-me neoliberal. Podem até chamar-me lãzudo, publicitário, malabarista, cabrão. Serei tudo o que disserem. Mas este governo de inspiração socialista já cansa. Mantém a chulice, mantém a cobrança da "taxa audiovisual" e entrega o dinheiro a uma empresa privada, criando uma nova PPP na boa linha das que atualmente nos enterram.
As reformas, para eles, são como para o Sócrates ou para o Seguro: verbos de encher (os bolsos de alguns).
3. No que respeita ao "serviço público", talvez as coisas até melhorem, com o afastamento do Malato, do Fernando Mendes, da Catarina Furtado ou do Gobern, que nenhum privado lhes vai pagar o que ganham agora. A missa mantém-se na TVI, como as touradas e as novelas portuguesas; os desenhos animados, os concursos americanos e as chamadas "séries de qualidade" - enlatados americanos recomendados pelo Jorge Mourinha - já dão na SIC; e as notícias elogiosas sobre o Sport Lisboa, o fado e a própria capital, bem como os comentadores e paineleiros (sempre os mesmos) já dão normalmente em todos os canais privados. Também o lambecuzismo aos nossos amigos de Angola ou da China ficam bem representados nesses canais.
[Não sei se me esqueci de alguma área de "serviço púbico" que temos atualmente (por atualmente entenda-se desde sempre) na nossa TV/rádio do Estado... A meteorologia? O Jorge Gabriel? O Festival da Eurovisão?]
4. Porquê uma concessão? Racional (e democrático) seria fechar a "empresa" e obrigar todos os operadores privados a cumprir regras (isenção e ética no jornalismo; produção nacional na ficção; até, se quiserem, uma hora semanal com a Moura Pinheiro ou com o AP Vasconcelos e outros programas para minorias - incluindo pornografia zoófila, que os apreciadores também são gente e nem todos gostam de tourada; etc.). Ou seja, colocar nas licenças de TODOS os canais privados em sinal aberto algumas regras de "serviço público" - o verdadeiro, não o "púbico" que temos.
5. Mas, no fundo, toda a conversa vem dos políticos e dos interesses gaiteiros do círculo de intelectuais lisboetas (enfim, e também dos não intelectuais) que vivem de sugar o "serviço púbico de radiodifusão". Porque, na realidade, quem quer "serviço púbico" de TV em modelo de "propriedade" do Estado, especialmente quando os outros serviços públicos (saúde, educação,...) andam pelas ruas da amargura?
E não é espantoso que os "indignados" e os opinion-makers de esquerda se indignem com taxas moderadoras nos hospitais e centros de saúde, mas achem bem que se pague esta taxa audiovisual, veja-se a TV do Estado ou não se veja? Aliás, veja-se TV ou não...
Acho ridículo que gente crescida se farte de discutir, como grande calamidade, o fim da propriedade de canais de rádio e TV por um Estado (coisa que eu acho própria de ditaduras e não de democracias). Indigente como é esta Pátria e esta Gente, a opinião púbica está-se a cagar sobre o fim dos apoios ao Livro ou à Música; borrifa-se para o fim dos apoios do Instituto Camões a Centros de Língua Portuguesa pelo mundo fora; etc. Mas a nossa TV, isso não! Como iríamos cultivar-nos (sem dor e sem esforço)???
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| Esta sigla quer dizer Ricos Tarados dos Popós |
As reformas, para eles, são como para o Sócrates ou para o Seguro: verbos de encher (os bolsos de alguns).
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| Socialistas de gaveta. A mesma luta. |
[Não sei se me esqueci de alguma área de "serviço púbico" que temos atualmente (por atualmente entenda-se desde sempre) na nossa TV/rádio do Estado... A meteorologia? O Jorge Gabriel? O Festival da Eurovisão?]
4. Porquê uma concessão? Racional (e democrático) seria fechar a "empresa" e obrigar todos os operadores privados a cumprir regras (isenção e ética no jornalismo; produção nacional na ficção; até, se quiserem, uma hora semanal com a Moura Pinheiro ou com o AP Vasconcelos e outros programas para minorias - incluindo pornografia zoófila, que os apreciadores também são gente e nem todos gostam de tourada; etc.). Ou seja, colocar nas licenças de TODOS os canais privados em sinal aberto algumas regras de "serviço público" - o verdadeiro, não o "púbico" que temos.
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| As TV privadas já fazem bom "serviço público". Para não falar nas emissoras de rádio. |
E não é espantoso que os "indignados" e os opinion-makers de esquerda se indignem com taxas moderadoras nos hospitais e centros de saúde, mas achem bem que se pague esta taxa audiovisual, veja-se a TV do Estado ou não se veja? Aliás, veja-se TV ou não...
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| Ou: por que alguns acham tão importante ter um "serviço púbico" de televisão. |
domingo, 24 de junho de 2012
A Alemanha não gosta de nazismo, parte II
Sobre xenofobia, intolerância e lições de democracia.
Gostava que atentassem na constituição das equipas no recente jogo no Euro 2012 entre as seleções da Alemanha (que joga um futebol bonito, atlético, rápido, franco e honesto) e da Grécia (que joga de uma forma que só posso classificar como repugnante).
Falo neste jogo em particular porque, pela Europa fora (e pelo nosso medíocre Portugal também), se criou uma onda de apoio à infeliz e oprimida Grécia, Pátria e Mátria da Democracia, que iria no Euro vingar o poder da arrogante e totalitária Alemanha no €uro. A coisa teria sido comovente se não me tivesse dado náuseas, porque isto de gente que se diz séria fazer este tipo de leituras de um jogo de futebol (um jogo de bola, senhores!) até mete nojo.
Vamos então à constituição das equipas:
Alemanha
Manuel Neuer; Jérôme Boateng, Holger Badstuber, Mats Hummels e Philipp Lahm; Bastian Schweinsteiger e Sami Khedira; Thomas Muller, Mezut Özil e Lukas Podolski; Mario Gómez.
Suplentes: Tim Wiese, Ron-Robert Zieler, Benedikt Höwedes, Per Mertesacker, Marcel Schmelzer, Lars Bender, Mario Götze, İlkay Gündoğan, Toni Kroos, Marco Reus, André Schurrle e Miroslav Klose.
Grécia
Sifakis; Torosidis, K. Papadopoulos, Sokratis e Tzavellas; Katsoranis e Maniatis; Salpingidis, Ninis e Samaras; Gekas.
Suplentes: Chalkias, Tzorvas, Malezas, Fetfatzidis, Makos, Fotakis, Fortounis, Liberopoulos e Mitroglou.
Boateng é filho de ganês e alemã e Gómez de espanhol e alemã. Özil, tal como Gündoğan, nasceu na Alemanha, de pais turcos. Khedira idem, de pais tunisinos. Podolski foi, com a família, da Polónia para a Alemanha quando tinha dois anos e Klose fez o mesmo caminho aos sete. Bender (Lars, irmão gémeo de outro jogador, Sven) tem um nome que ressoa a escandinavo.
Não vale a pena alongar-me. O contraste com a imaculada profusão de kis, tis, ounis, poulos e outros que tais parece-me um bom indício sobre onde estão, geograficamente, o multiculturalismo e a tolerância. E não parece ser no Mediterrâneo.
Gostava que atentassem na constituição das equipas no recente jogo no Euro 2012 entre as seleções da Alemanha (que joga um futebol bonito, atlético, rápido, franco e honesto) e da Grécia (que joga de uma forma que só posso classificar como repugnante).
Falo neste jogo em particular porque, pela Europa fora (e pelo nosso medíocre Portugal também), se criou uma onda de apoio à infeliz e oprimida Grécia, Pátria e Mátria da Democracia, que iria no Euro vingar o poder da arrogante e totalitária Alemanha no €uro. A coisa teria sido comovente se não me tivesse dado náuseas, porque isto de gente que se diz séria fazer este tipo de leituras de um jogo de futebol (um jogo de bola, senhores!) até mete nojo.
Vamos então à constituição das equipas:
Alemanha
Manuel Neuer; Jérôme Boateng, Holger Badstuber, Mats Hummels e Philipp Lahm; Bastian Schweinsteiger e Sami Khedira; Thomas Muller, Mezut Özil e Lukas Podolski; Mario Gómez.
Suplentes: Tim Wiese, Ron-Robert Zieler, Benedikt Höwedes, Per Mertesacker, Marcel Schmelzer, Lars Bender, Mario Götze, İlkay Gündoğan, Toni Kroos, Marco Reus, André Schurrle e Miroslav Klose.
Grécia
Sifakis; Torosidis, K. Papadopoulos, Sokratis e Tzavellas; Katsoranis e Maniatis; Salpingidis, Ninis e Samaras; Gekas.
Suplentes: Chalkias, Tzorvas, Malezas, Fetfatzidis, Makos, Fotakis, Fortounis, Liberopoulos e Mitroglou.
Boateng é filho de ganês e alemã e Gómez de espanhol e alemã. Özil, tal como Gündoğan, nasceu na Alemanha, de pais turcos. Khedira idem, de pais tunisinos. Podolski foi, com a família, da Polónia para a Alemanha quando tinha dois anos e Klose fez o mesmo caminho aos sete. Bender (Lars, irmão gémeo de outro jogador, Sven) tem um nome que ressoa a escandinavo.
Não vale a pena alongar-me. O contraste com a imaculada profusão de kis, tis, ounis, poulos e outros que tais parece-me um bom indício sobre onde estão, geograficamente, o multiculturalismo e a tolerância. E não parece ser no Mediterrâneo.
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| Os gregos são Pais de uma democracia que tinha filhos e enteados, a δημοκρατίας. Dispenso lições vindas daqueles lados. |
A Alemanha não gosta de nazismo, parte I
Ando bastante incomodado com a de cada vez mais frequente comparação da atual situação europeia com a que se vivia na época de ascensão do nazismo, na Alemanha, lá pela segunda década do século vinte. Porque, diz-se, a austeridade excessiva leva ao crescimento dos movimentos de extrema-direita. Porque, diz-se, há uma nova xenofobia que emerge, humilhando os povos ditos "do sul" (e a inflexibilidade da senhora Merkel é, afinal, mais um tique nazi).
Ando incomodado porque a austeridade, pelo menos em Portugal, se diz mais do que se pratica. Porque a "nazi" e "totalitária" senhora Merkel vai incontáveis vezes ao Parlamento alemão explicar-se e pedir autorização para tomar determinadas atitudes em matéria de política europeia, dando lições de democracia aos países mediterrânicos e a Portugal. Porque me parece que a xenofobia, a intolerância e o desdém estão, na verdade, do lado dos "do sul", assentando numa suposta superioridade moral que vem de longe na História (são "pátrias da democracia" e coisas deste tipo).
Ninguém tem razão nesta situação de crise europeia, e ninguém ganha em levá-la até às últimas consequências. Mas, senhores esquerdistas, não me venham com conversas de meter medo a criancinhas, destinadas sabe-se lá a que fins.
A primeira daquelas ideias (austeridade conduz a totalitarismo nazi) merece, pelo menos, uma análise objetiva, como me parece a que Jorge Almeida Fernandes expressa no Público de hoje, 24 de junho de 2012.
Aqui deixo a sua crónica, com o devido agradecimento, antes de passar (em próxima posta de Linguado) à questão da "nova xenofobia".
Análise
Austeridade e nazismo: o abuso da História
Por Jorge Almeida Fernandes
Ewald Nowotny, governador do banco central austríaco, declarou na quarta-feira: "O enfoque exclusivo na política de austeridade [nos anos 1920-30] levou ao desemprego maciço, ao desmoronamento do sistema democrático e, por fim, à catástrofe do nazismo." A AFP condensou a ideia num título: "Excessiva austeridade levou ao nazismo." Dias antes, escrevera a revista The Economist: "Não foi a hiperinflação nos anos 1920, mas a depressão e o desemprego maciço que propulsionaram Hitler para o poder."Estas afirmações surgem associadas à "ascensão dos extremos" nas últimas eleições europeias.
Nowotny evoca o passado para iluminar o presente. É um crítico da política do Bundesbank e do Governo Merkel e, como austríaco, terá particular sensibilidade ao nazismo - a Áustria foi parte do III Reich e lá nasceu Hitler. Também os alemães têm os seus fantasmas, como a memória da hiperinflação dos anos 1920: a taxa de inflação passou de 244%, em 1920, para 1.870.000.000% em 1923.
Resta questionar o rigor destas analogias. O fascismo e o nazismo são um produto da Grande Guerra de 1914-18. As teses do determinismo económico foram há muito abandonadas. Mussolini tomou o poder em 1922, bem antes da crise de 1929. Na Alemanha, a "crise" foi acima de tudo uma crise do Estado, dobrada por uma crise nacional (produto da guerra) e agravada por uma crise económica importada e por uma resposta que abriu a espiral do desemprego. A política deflacionista do chanceler Brüning (1930-32) foi um desastre, mas nada autoriza atribuir-lhe o triunfo de Hitler.
Trata-se de um equívoco radical. Por que será que, na França, crise e desemprego desembocaram na vitória da esquerda nas eleições de 1936 e no Governo da Frente Popular? Porque não se tratou de um efeito mecânico da crise.
Mais do que um erro histórico, este tipo de analogia - entre a Alemanha de 1933 e a Europa de 2012 - contribui para obscurecer as reais ameaças do presente.
O problema da analogia
A ignorância da História é a suprema forma de cegueira. Mas não basta evocar o passado. A analogia levanta um problema: que "passado" escolhemos como modelo para pensar o presente? Escolher "um passado" como termo de referência significa eliminar muitos outros. Somos movidos pela nossa experiência - e as experiências dos povos não são as mesmas - e pelo resultado que queremos atingir. O problema começa aqui.
Estamos habituados ao abuso da figura do "apaziguamento": quem se opõe a uma guerra, nos Balcãs ou no Iraque, é um "apaziguador". Em 1938, em Munique, para evitar a guerra, a França e a Grã-Bretanha tentaram "apaziguar" Hitler, dando-lhe mãos livres na Checoslováquia. Foi um erro colossal. Mas seria absurdo utilizá-lo como precedente para justificar a sistemática opção pela guerra.
A guerra americana no Iraque, em 2003, é o melhor exemplo de auto-intoxicação pela analogia histórica. George W. Bush e os neoconservadores cedo designaram a Alemanha nazi como "paradigma" da sua política iraquiana. Assimilar um ditador a Hitler é eficaz como propaganda, mas perigoso quando usado como instrumento de análise.
Ninguém poderá compreender a soma de erros cometidos na "reconstrução" do Iraque sem ter isto em conta. Paul Wolfowitz, subsecretário da Defesa, assimilava (sinceramente) a queda de Bagdad em 2003 à de Berlim em 1945. O procônsul Paul Bremmer tinha no gabinete um famoso quadro -Milestones: Iraq and Germany- com duas colunas onde se comparavam os progressos feitos nos dois casos. O Pentágono assimilou o Baas ao partido nazi. As medidas de pacificação e de nation-building foram decalcadas da desnazificação da Alemanha, a começar pela desastrosa dissolução do Exército iraquiano. Pouco adiantaram os avisos do Departamento de Estado, onde muitos duvidavam de que o Iraque fosse a Alemanha.
A própria experiência britânica na Mesopotâmia, após a I Guerra Mundial, foi rejeitada por não promover a democracia. O neoconservador Douglas Feith reconheceu que nunca se questionou sobre a construção de instituições democráticas nas sociedades árabes. Se a Alemanha e o Japão, paradigmas do totalitarismo e do militarismo, se democratizaram, era inútil formular sequer o problema. É o trabalho que hoje está a ser dolorosamente feito nas "primaveras árabes".
Extrema-direita na Europa
Outro clássico de "abuso da História" (a expressão é de Shlomo Ben-Ami) é o caso Israel-Irão. Netanyahu erigiu Ahmadinejad em "novo Hitler", encorajando a analogia entre a destruição dos judeus da Europa pelos nazis e a ameaça de destruição de Israel por um Irão com arma nuclear. É uma operação de elevado risco, inclusive para Israel. Hitler é uma obsessão perigosa.
Que se passa com a extrema-direita na Europa? O politólogo francês Jean-Yves Camus chama a atenção para a sua génese: "O movimento nacional-populista que se inscreve a longo prazo na extrema-direita parte da Escandinávia e obtém sucessos eleitorais precursores na França, na Bélgica e na Áustria. A extrema-direita participa em governos na Itália desde 1993, depois na Áustria em 2000 e na Holanda em 2002." Participou ainda nos governos da Roménia (2004) e da Eslováquia (2007). Não nasceu com o euro e a austeridade.
E na Grécia? O partido "nazi" Aurora Dourada progrediu à custa da queda de outro partido de extrema-direita, LAOS, e da exacerbação da xenofobia. Porquê? O LAOS votou o memorando da troika e a Nova Aurora é virulentamente anti-europeísta e especializou-se na agressão a imigrantes.
Há temas e traços comuns nestes movimentos, como a imigração, o nacionalismo ou a xenofobia. Mas não encontramos o padrão ideológico do nazismo - o racismo biológico, o anti-semitismo, o ataque ao pluralismo e à democracia. Têm, sim, e cada vez mais, um denominador comum: o eurocepticismo e a hostilidade ao euro. É neste ponto que mais explosivos podem ser.
Em suma: para discutir o euro e a austeridade é recomendável não invocar o fantasma de Hitler, que apenas serve para mistificar.
Ando incomodado porque a austeridade, pelo menos em Portugal, se diz mais do que se pratica. Porque a "nazi" e "totalitária" senhora Merkel vai incontáveis vezes ao Parlamento alemão explicar-se e pedir autorização para tomar determinadas atitudes em matéria de política europeia, dando lições de democracia aos países mediterrânicos e a Portugal. Porque me parece que a xenofobia, a intolerância e o desdém estão, na verdade, do lado dos "do sul", assentando numa suposta superioridade moral que vem de longe na História (são "pátrias da democracia" e coisas deste tipo).
Ninguém tem razão nesta situação de crise europeia, e ninguém ganha em levá-la até às últimas consequências. Mas, senhores esquerdistas, não me venham com conversas de meter medo a criancinhas, destinadas sabe-se lá a que fins.
A primeira daquelas ideias (austeridade conduz a totalitarismo nazi) merece, pelo menos, uma análise objetiva, como me parece a que Jorge Almeida Fernandes expressa no Público de hoje, 24 de junho de 2012.
Aqui deixo a sua crónica, com o devido agradecimento, antes de passar (em próxima posta de Linguado) à questão da "nova xenofobia".
Análise
Austeridade e nazismo: o abuso da História
Por Jorge Almeida Fernandes
Ewald Nowotny, governador do banco central austríaco, declarou na quarta-feira: "O enfoque exclusivo na política de austeridade [nos anos 1920-30] levou ao desemprego maciço, ao desmoronamento do sistema democrático e, por fim, à catástrofe do nazismo." A AFP condensou a ideia num título: "Excessiva austeridade levou ao nazismo." Dias antes, escrevera a revista The Economist: "Não foi a hiperinflação nos anos 1920, mas a depressão e o desemprego maciço que propulsionaram Hitler para o poder."Estas afirmações surgem associadas à "ascensão dos extremos" nas últimas eleições europeias.
Nowotny evoca o passado para iluminar o presente. É um crítico da política do Bundesbank e do Governo Merkel e, como austríaco, terá particular sensibilidade ao nazismo - a Áustria foi parte do III Reich e lá nasceu Hitler. Também os alemães têm os seus fantasmas, como a memória da hiperinflação dos anos 1920: a taxa de inflação passou de 244%, em 1920, para 1.870.000.000% em 1923.
Resta questionar o rigor destas analogias. O fascismo e o nazismo são um produto da Grande Guerra de 1914-18. As teses do determinismo económico foram há muito abandonadas. Mussolini tomou o poder em 1922, bem antes da crise de 1929. Na Alemanha, a "crise" foi acima de tudo uma crise do Estado, dobrada por uma crise nacional (produto da guerra) e agravada por uma crise económica importada e por uma resposta que abriu a espiral do desemprego. A política deflacionista do chanceler Brüning (1930-32) foi um desastre, mas nada autoriza atribuir-lhe o triunfo de Hitler.
Trata-se de um equívoco radical. Por que será que, na França, crise e desemprego desembocaram na vitória da esquerda nas eleições de 1936 e no Governo da Frente Popular? Porque não se tratou de um efeito mecânico da crise.
Mais do que um erro histórico, este tipo de analogia - entre a Alemanha de 1933 e a Europa de 2012 - contribui para obscurecer as reais ameaças do presente.
O problema da analogia
A ignorância da História é a suprema forma de cegueira. Mas não basta evocar o passado. A analogia levanta um problema: que "passado" escolhemos como modelo para pensar o presente? Escolher "um passado" como termo de referência significa eliminar muitos outros. Somos movidos pela nossa experiência - e as experiências dos povos não são as mesmas - e pelo resultado que queremos atingir. O problema começa aqui.
Estamos habituados ao abuso da figura do "apaziguamento": quem se opõe a uma guerra, nos Balcãs ou no Iraque, é um "apaziguador". Em 1938, em Munique, para evitar a guerra, a França e a Grã-Bretanha tentaram "apaziguar" Hitler, dando-lhe mãos livres na Checoslováquia. Foi um erro colossal. Mas seria absurdo utilizá-lo como precedente para justificar a sistemática opção pela guerra.
A guerra americana no Iraque, em 2003, é o melhor exemplo de auto-intoxicação pela analogia histórica. George W. Bush e os neoconservadores cedo designaram a Alemanha nazi como "paradigma" da sua política iraquiana. Assimilar um ditador a Hitler é eficaz como propaganda, mas perigoso quando usado como instrumento de análise.
Ninguém poderá compreender a soma de erros cometidos na "reconstrução" do Iraque sem ter isto em conta. Paul Wolfowitz, subsecretário da Defesa, assimilava (sinceramente) a queda de Bagdad em 2003 à de Berlim em 1945. O procônsul Paul Bremmer tinha no gabinete um famoso quadro -Milestones: Iraq and Germany- com duas colunas onde se comparavam os progressos feitos nos dois casos. O Pentágono assimilou o Baas ao partido nazi. As medidas de pacificação e de nation-building foram decalcadas da desnazificação da Alemanha, a começar pela desastrosa dissolução do Exército iraquiano. Pouco adiantaram os avisos do Departamento de Estado, onde muitos duvidavam de que o Iraque fosse a Alemanha.
A própria experiência britânica na Mesopotâmia, após a I Guerra Mundial, foi rejeitada por não promover a democracia. O neoconservador Douglas Feith reconheceu que nunca se questionou sobre a construção de instituições democráticas nas sociedades árabes. Se a Alemanha e o Japão, paradigmas do totalitarismo e do militarismo, se democratizaram, era inútil formular sequer o problema. É o trabalho que hoje está a ser dolorosamente feito nas "primaveras árabes".
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| Foto: Grigoris Siamidis/REUTERS |
Outro clássico de "abuso da História" (a expressão é de Shlomo Ben-Ami) é o caso Israel-Irão. Netanyahu erigiu Ahmadinejad em "novo Hitler", encorajando a analogia entre a destruição dos judeus da Europa pelos nazis e a ameaça de destruição de Israel por um Irão com arma nuclear. É uma operação de elevado risco, inclusive para Israel. Hitler é uma obsessão perigosa.
Que se passa com a extrema-direita na Europa? O politólogo francês Jean-Yves Camus chama a atenção para a sua génese: "O movimento nacional-populista que se inscreve a longo prazo na extrema-direita parte da Escandinávia e obtém sucessos eleitorais precursores na França, na Bélgica e na Áustria. A extrema-direita participa em governos na Itália desde 1993, depois na Áustria em 2000 e na Holanda em 2002." Participou ainda nos governos da Roménia (2004) e da Eslováquia (2007). Não nasceu com o euro e a austeridade.
E na Grécia? O partido "nazi" Aurora Dourada progrediu à custa da queda de outro partido de extrema-direita, LAOS, e da exacerbação da xenofobia. Porquê? O LAOS votou o memorando da troika e a Nova Aurora é virulentamente anti-europeísta e especializou-se na agressão a imigrantes.
Há temas e traços comuns nestes movimentos, como a imigração, o nacionalismo ou a xenofobia. Mas não encontramos o padrão ideológico do nazismo - o racismo biológico, o anti-semitismo, o ataque ao pluralismo e à democracia. Têm, sim, e cada vez mais, um denominador comum: o eurocepticismo e a hostilidade ao euro. É neste ponto que mais explosivos podem ser.
Em suma: para discutir o euro e a austeridade é recomendável não invocar o fantasma de Hitler, que apenas serve para mistificar.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Pudor e democracia
Por puro pudor, já que Cesária Évora tinha acabado de falecer, o Linguado não comentou os resultados do Índice sobre a Qualidade da Democracia do Economist Intelligence Unit, que diz com as palavras todas que Cabo Verde tem uma melhor democracia do que Portugal.
Não vale a pena saltar de contentamento, porque em ambos os casos se trata de "democracias com falhas", embora naturalmente com leituras diferentes:
As notícias sobre nomeações de gente ligada ao governo para os lugares de sempre, reforçando o sistema de vasos comunicantes entre o Estado e algum setor privado parasita, os desesperados golpes de rins do partido mais responsável pela situação, o ar de superioridade moral com que o anterior primeiro-ministro se tem apresentado ou com que os seus apaniguados o vêm reabilitar não auguram nada de bom.
Mas deixemos o esterco e voltemos ao que me traz aqui: desde o dia em que se noticiou o tal índice do EIU que ando para mostrar aqui que há quem saiba onde estão as boas escolhas. O rosto por trás do Linguado já tinha escolhido a sua bandeira: azul e branca, com o círculo de estrelas douradas.
(Dedicado ao Júlio, ao José, ao Frantz e à Cesária).
Não vale a pena saltar de contentamento, porque em ambos os casos se trata de "democracias com falhas", embora naturalmente com leituras diferentes:
Cabo Verde é um país jovem e com poucos recursos. Está a progredir.
Portugal é um país velho e com muitos corruptos. Anda a pedir.
Não vale também a pena espantar-nos: por muito que apoiemos o esforço do nosso governo para conseguirmos pagar o que devemos, não nos sai da boca aquela sensação de que, no resto, não se está a mudar nada e rapidamente seremos outra vez uns desgraçados.As notícias sobre nomeações de gente ligada ao governo para os lugares de sempre, reforçando o sistema de vasos comunicantes entre o Estado e algum setor privado parasita, os desesperados golpes de rins do partido mais responsável pela situação, o ar de superioridade moral com que o anterior primeiro-ministro se tem apresentado ou com que os seus apaniguados o vêm reabilitar não auguram nada de bom.
Mas deixemos o esterco e voltemos ao que me traz aqui: desde o dia em que se noticiou o tal índice do EIU que ando para mostrar aqui que há quem saiba onde estão as boas escolhas. O rosto por trás do Linguado já tinha escolhido a sua bandeira: azul e branca, com o círculo de estrelas douradas.
| Cidade da Praia, outubro de 2011 |
(Dedicado ao Júlio, ao José, ao Frantz e à Cesária).
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