segunda-feira, 28 de abril de 2014

A Divina Comédia

Quando digo que o desaparecimento de Vasco Graça Moura me é indiferente, isso não quer dizer que o próprio fosse irrelevante. (Irrelevante sou eu, por muito que me ponha para aqui a escrever).


VGM não foi, nem é, irrelevante para a Cultura.
Apesar de eu não ser "de Letras" e, por isso, me ter bastado ler alguns poetas italianos, ou Shakespeare, em edições mais antigas, tenho que aceitar que talvez apenas as traduções de VGM sejam "inexcedíveis". Também não me fascina nem comove a sua poesia, mas isso deve ser deficiência minha, que prefiro a prosa.

Não foi irrelevante para a "cultura".
Quem não se lembra dos altos cargos que desempenhou, no CCB, na INCM, nas diversas Comissões a que presidiu, do seu papel nas Expos daqui e dali, dos milhões de euros públicos que gastou, do seu legado enquanto governante? OK, eu prefiro não me lembrar, mas, mais uma vez, eu não sou exemplo.

Também não foi irrelevante para a tortura.
Como podia, tendo sido defensor público e acérrimo da invasão do Iraque e simpatizante da pena de morte?

Infelizmente, este homem de tantos méritos públicos ficará, para mim, ligado à forma grotesca como se opunha, publicamente, à aplicação do Acordo Ortográfico de 1990. Escrevendo e falando com um visível desprezo por quem pensava diferente (leiam-se as suas dezenas de crónicas sobre o assunto). Proibindo a aplicação do AO'90 no Centro Cultural de Belém, desrespeitando o Estado e o Povo, atropelando todos com a sua vaidade de pequeno ditador. E recorrendo a truques de gente menor, como a mentira, para brilhar entre os tontos.

Um exemplo que foi muito recordado nas últimas horas (embora com a intenção contrária da minha) foi um improviso que escreveu para celebrar um aniversário do blogue de José Pacheco Pereira (Abrupto), já em 2008. JPP recordou-o, ontem:

glosa para josé pacheco pereira

são sentimentos humanos,
eu na alma hei-de pôr luto:
o abrupto hoje faz anos,
não pode ficar "abruto"!

não deve viver-se à míngua,
neste nosso dia-a-dia,
de prezar a ortografia
que bem calha à nossa língua.
se lhe dão facadas, vingo-a,
passo logo a fazer planos,
eriçado por tais danos,
de lavrar o meu protesto,
e se assim me manifesto
são sentimentos humanos.

chamo então especialistas,
eminentes professores,
os colegas escritores
e também vários linguistas,
leio livros e revistas,
questiono, leio, escuto,
e aprendendo assim refuto
coisa que é tão aberrante
que se acaso for àvante
eu na alma hei-de pôr luto.

grafias facultativas
em matérias tão sisudas
como as consoantes mudas
levam ao caos, às derivas,
às asneiras permissivas
e aos babélicos enganos.
porém fiquemos ufanos
pela data que hoje passa.
pois não sabiam? tem graça...
o abrupto hoje faz anos...

se lhe tirassem o p,
vigorosa consoante
do seu título, bastante
mal faziam, já se vê.
e percebe-se porquê
sem se gastar um minuto:
se do p ficar enxuto,
vão-se a força e a coragem
abruptamente da imagem:
não pode ficar "abruto"!

(Vasco Graça Moura)

É tudo muito bonito, mesmo a forma de escrever "àvante", que é tão "retro", mas, como toda a obra destinada a mistificar os ignorantes, assenta num pseudo-facto. A de que o Acordo Ortográfico ameaça o "p" de abrupto, que não é mudo. Isso é mentira, deliberada mentira, desonesta mentira.

Como não escreveu Dante, na sua Divina Comédia, "é só rir". Demagogia assim também eu sei fazer. Já da poesia, ao nível do melhor Quim Barreiros, não posso dizer o mesmo.

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