Quis o destino (ou o subconsciente) que o programador da TSF abrisse a hora seguinte com a (verdadeira) brilhante Elis Regina numa das suas mais brilhantes interpretações, Como nossos pais, canção escrita por Antônio Carlos Belchior.
Primeiro ouve-se, não a versão editada, mas apenas a voz, sensacional a cappella.
2. José Gil preocupa-se com "os portugueses, a quem tiraram o presente e o futuro". Parece-me alinhar na hipocrisia que reina entre nós, falando d'eles, os neoliberais selvagens, o governo...
Lava, com todos lavamos, as mãos da verdadeira causa desta negação de futuro aos jovens: a ganância de uma gente que quer ter tudo, pois alguém, no futuro, há de pagar.
3. Não que os jovens, de que todos falam e usam como arma de arremesso política e social, sejam inocentes. Eles, afinal, são o reflexo natural da educação que tiveram e dos valores mesquinhos que absorveram. É assim há muitos anos, como assinala a cantora: minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.
4. Esse facto não nos inocenta, e chegará o momento em que os jovens se vão dar conta do que significam coisas tenebrosas como "viver acima das suas possibilidades", "voltar aos mercados", "gerir a dívida", "Estado Social" e todas essas expressões tão queridas aos economistas políticos de esquerda (a formal e a informal, que se finge liberal e de mercado mas vive parasitando o monstro).
Um dia, os nossos filhos ou os filhos deles vão saber que quem lhes deu a ideia de uma nova consciência e juventude está em casa, guardado por Deus, contando o vil metal...
5. Não sei o que cantam os jovens de agora, mas parece-me que não já não é que os seus ídolos ainda são os mesmos. A fuga para a frente, no escuro e sem rede, da geração que agora anda nas universidades faz o Maio de '68, tão querido a José Gil, parecer um festim de jovens burgueses lançando-se, entusiasmados, para a piscina. A Europa e o mundo cresciam, escondendo os seus podres, e havia dinheiro para tudo.
As aparências não enganam, não. Quem são os ídolos do meu filho? Sei, apenas, que não são os meus.

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