domingo, 26 de agosto de 2012

Lindo serviço no Público

Já não é a primeira vez que jornalistas do Público escorregam nas referências ao mundo editorial em Portugal, revelando falta de cuidado, preguiça e ignorância inaceitáveis em quem escreve sobre livros e, para mais, num estilo sempre super-seguro.
Há dois ou três anos, uma jovem jornalista publicou uma matéria sobre "policial nórdico" e escreveu que Henning Mankell continua, infelizmente, inédito em Portugal. Quando chamei a atenção para o facto de isso ser uma evidentíssima mentira, teve a lata de responder "Sim, sim, mas tente encontrar os livros, que estão esgotadíssimos". Enviei-lhe uma lista de várias livrarias que têm estantes cheias de livros de Mankell em português. E fiquei convencido que a moça não fazia ideia de quem era esse escritor quando esteve a traduzir à pressa os materiais que sacou da Internet para parecer muito culta.

Ontem o caso não seria tão grave, mas acontece que implicava com um dos meus livros favoritos e que, para mais, deu origem a uma das mais felizes adaptações para cinema de que tenho memória.
Trata-se de O Fim da Aventura (The End of the Affair, 1951), de Graham Greene. O filme, de 1999, foi realizado por Neil Jordan, com  Ralph Fiennes, Julianne Moore e Stephen Rea em grande estilo.
A matéria do Público, que aliás é muito interessante, começa assim (destaque meu):


Numa nota final, Susana Moreira Marques diz que "as citações são tiradas da edição de 1953, da Editorial Estúdios Cor, Lisboa, com tradução de Jorge de Sena."
Fica sempre bem citar os clássicos em edições clássicas. O que não fica tão bem é fazer afirmações do tipo "um livro que falta reeditar em Portugal" sem procurar um bocadinho.
Dez minutos, uma consulta a algumas livrarias ou até na Internet teria permitido encontrar reedições do livro. Não só foi reeditado como não me parece difícil de arranjar. Pelo menos, as versões que são da responsabilidade das Edições Asa, Porto. Falo da de 1995, da de 2000, da de 2005 (6?) e confesso que não procurei mais. Edições na coleção Pequenos Prazeres, na coleção Asa de Bolso e até uma distribuída, em 2006, na compra de iogurtes DanUp!
Em todas se usa a tradução de Jorge de Sena e se mantém a ortografia da edição de 1958 da Estúdios Cor (a 2ª edição).
Enfim, até concordo que é sempre bom reeditar bons livros e mais vale prevenir, antes que esgotem. Também é verdade que a tradução de Jorge de Sena já poderá justificar um lifting e que o Acordo Ortográfico de 1990 deverá implicar uma atualização.
Mas, com mil raios, um bocadinho mais de brio!












5 comentários:

  1. muito bem. Eu não gostei deste artigo da jornalista logo nas primeiras frases e quando diz que as histórias deste livro «estão talvez fora de moda». podem as histórias passar de moda?
    abraço
    Céu Mota (Aventar)

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    1. ... o Público está verdadeiramente em silly season...
      Aventem em cima deles!

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  2. Caro Artur Costa,

    Falta reeditar O Fim da Aventura, porque neste momento não existe uma edição disponível. A referência à edição de 1953 era simplesmente a referência ao livro que eu usei para as citações (aliás, é raro encontrar-se artigos nos jornais que tenham o cuidado de indicar o número de página e a edição de onde retiram as citações). Não está escrito em lado nenhum no artigo que o livro não esteve disponível desde 53, e não era de todo minha intenção sugerir tal coisa. Como é um dos meus livros preferidos também - por isso o escolhi - sei perfeitamente que foi editado em anos recentes. E já agora, informo-o também de que contactei a Asa para saber quais os planos da editora para reeditar O Fim da Aventura, para poder incluir no artigo, mas não obtive nenhuma resposta a tempo.
    Eu não sou jornalista do Público, sou freelancer, mas posso dizer-lhe, sendo colaboradora do jornal há vários anos, que os jornalistas do Público são em geral extremamente dedicados, trabalhadores e muito cuidadosos em relação às suas referências. É uma pena - e extraordinariamente injusto - que se tirem conclusões precipitadas quanto à preguiça e ignorância dos jornalistas.
    Melhores cumprimentos,
    Susana Moreira Marques

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    1. Peço desculpa se fui injusto. Quero, aliás, dizer que tive esse receio e tentei, por mais de uma vez, contacto direto com o jornal, através de colocação de mensagem, bem mais curta e inócua do que esta posta, e através de envio de e-mail para o webmaster. Nenhum dos contactos resultou, apesar de eu ter preferido que tivesse resultado - o esclarecimento direto e reservado é sempre melhor.
      Mas, se há injustiça, não será assim tão grande, porque (e isso não se aplicará a si por não ser jornalista do Público) a verdade é que abundam no meu jornal favorito as provas de desleixo, irresponsabilidade e falta de rigor e isenção. De muitas tenho dado eco aqui. A história anterior, sobre os livros da série Wallander, que eu acho verdadeiramente escandalosa, deixou-me de pé atrás.
      Também é verdade que encontrei o romance "O Fim da Aventura", na edição da ASA, à venda em duas livrarias, no Porto, entre sábado e hoje. Porque só coloquei a nota depois de fazer essa verificação. O facto de não haver na FNAC ou noutras mega-superfícies não pode levar-nos a concluir que "falta reeditar".
      [A ASA, no que respeita a responder, é ainda pior do que o Público. Também já lhes perguntei quando retomam a (re) edição das obras de Simenon e de Vazquez Montalban e continuo à espera].

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    2. Olá Artur. Sim, é sempre bom um contacto directo (comigo pode sempre contactar por FB). De facto, o que eu entendi é que não havia livros disponíveis para encomendar, que o título já estava fora de circulação... É possível que os que encontrou fossem restos de stock ou é possível que eu tenha sido mal informada. Eu não consegui ter uma resposta da Asa, o que foi de facto uma pena. Pareceu-me importante realçar que o livro não está disponível, precisamente por ser um livro tão bonito e importante. Talvez pudesse ter explicado todos estes meandros das várias edições do romance, mas pareceu-me que ia distrair do objectivo do texto, que era falar do livro, contar a história de como foi escrito. Mas de facto admito que possa ter ficado confuso para quem lê, visto que só há referência a uma edição de 53. Nós temos que tomar decisões do que pôr ou tirar do texto e às vezes perdem-se coisas importantes. De qualquer maneira, acho muito bom que os leitores critiquem e verifiquem e estejam atentos, e nós cometemos muitos erros, às vezes por falta de tempo, outras vezes por falta de mais talento, ou simplesmente porque somos humanos. Deixe-me só dizer-lhe mais uma coisa: não citei da edição de 53 por "ficar bem", como diz, mas porque a edição que tenho do romance é em inglês e tive que ir a uma biblioteca para poder comparar as citações que tinha escolhido em inglês com as de uma versão portuguesa, na tradução do Sena. Essa edição de 53 era a que estava disponível. Cumprimentos, Susana Moreira Marques

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