sexta-feira, 8 de junho de 2018

Os dois desertos

Há meia dúzia de meses vimos, na televisão, o professor e investigador Filipe Duarte Santos alertar para o avanço do deserto nos países do norte de África, que leva a que Portugal comece a ter o clima de Marrocos, Argélia ou a Tunísia - e, acrescento eu, que leva a que a Europa tenha às suas portas milhares de pessoas sem água e sem esperança de futuro naquelas terras áridas do Sara em expansão. Nessa intervenção, FDS chega a fazer uma sugestão: transferir os sobreiros para o norte do país, já que o montado, diz a ciência, não sobrevive - a falta de água vai extingui-lo no Alentejo. Para manter a produção de cortiça, disse FDS, "razoável era ajudar o montado a migrar em altitude e para norte", até tendo em conta os locais que este ano foram afetados pelos incêndios.
Também um artigo na Science, em novembro de 2016, concluía que, sem medidas extraordinárias e sem uma radical mudança dos padrões de vida (que, obviamente, não vão ocorrer), o sul da Península Ibérica pode transformar-se num deserto até 2100.

Um campino no Ribatejo, circa 2103 (Foto AFP)
Uso estas duas referências para recordar que  Portugal tem dois desertos: o deserto demográfico e o deserto geoclimático. A desertificação populacional sugere a dicotomia litoral-interior e a desertificação climática distingue o norte do sul. E, embora as duas não desenhem o mesmo país, em grande parte do território (a chamada baixa densidade) encontramos esta dupla aridez.
Estes desertos não são ficções, já estão aí à porta, e ambos deviam ser os elementos chave das nossas políticas de desenvolvimento e ordenamento do território. Mas a discussão do PNPOT (Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território) que por aí anda é tardia, sendo-nos apresentado um Programa já muito compostinho, cheio de diagnósticos (setoriais) e planos de ação (na linha do business as usual), sem que se tenham discutido verdadeiramente as grandes opções e sem que os diagnósticos sejam tidos em conta para desenhar a estratégia. Constata-se que o clima está em alteração e os solos a desertificar? Não há problema, está mesmo a ver-se que a opção para o futuro é deitar água na aridez e, claro, cobrar mais por essa água. Piamente, também nos dizem que temos que gastar menos água e reutilizar o mijo.

Hoje somos dez milhões, amanhã seremos um pouco menos. Seremos diferentes - globalmente mais velhos e com um mix étnico mais colorido. Pode discutir-se, a sério, se o nosso território deve, também, encurtar. Para o litoral, aproximando-nos e permitindo uma gestão de infraestruturas e serviços coletivos mais racional. E para o norte, onde (ainda) vamos ter água e podemos gerir o seu uso, sem necessitar de comprometer as gerações futuras com políticas de recursos hídricos que nos vão arruinar (e que, na prática, serão um permanente conflito entre os que os têm e os que não os têm, entre Espanha e Portugal, entre o norte e o sul). De que servem os Alquevas quando os Guadianas secarem? Quanto nos custará, coletivamente, um oásis turístico no Algarve? Se os sobreiros podem migrar, se os norte-africanos já o fazem, porque não podem os portugueses mudar de casa?
Não me lembro de isto ter sido discutido quando se desenhou o PNPOT - apesar dos alertas dos cientistas.


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