sexta-feira, 13 de abril de 2018

A morte da cidade, segundo António Guerreiro

No Público de hoje (suplemento Ípsilon), um texto de António Guerreiro que temos que ler.


Se Veneza e Lisboa e o Porto e Barcelona se despovoam da mesma maneira e se tornam idênticas a um modelo único da cidade histórica, isso acontece porque aqueles que deveriam impedir que isso acontecesse nada fizeram. Ou então, tudo o que fizeram destinou-se a acelerar o processo. Vê-se a morte da cidade no despovoamento; vê-se a morte da cidade na museificação que a torna terra de ninguém para o turismo; vê-se a morte da cidade na sua perda de memória, que é uma crise na relação com o passado; vê-se a morte da cidade quando ela fica inteiramente voltada para a inércia patrimonial dos “bens culturais” (esvaziados de todo o significado histórico) e perdeu completamente de vista o sentido da palavra “habitar”; vê-se a morte da cidade quando ela se sujeitou à homogeneização e ficou conforme a um modelo global, que se repete em todas as cidades europeias (...). Antes de serem atingidas pelo mal que as está a matar, as cidades históricas foram poderosas máquinas de pensar. A monocultura da cidade global é um eclipse do pensamento. O direito à cidade reclamado por Lefebvre não era um capricho de historiador: respondia a uma necessidade social e aos fundamentos da cultura europeia. 

2 comentários:

  1. O número de venezianos residentes (50.000), deixou-me estarrecido...
    Qualquer dia, Lisboa, qualquer dia, o Porto...

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    1. Veneza é um caso extremo, um laboratório que não foi compreendido a tempo. Creio que ainda estamos longe disso.
      A denúncia de Guerreiro é certeira. Quantos autarcas conhecemos que, ao mesmo tempo que "denunciam" a "turistificação", tudo fazem para atrair turistas e "investimento"? O que podemos dizer dos governantes que se orgulham de ver o emprego crescer no turismo, mesmo que isso signifique quase-escravatura e desperdício de competências?

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