sexta-feira, 14 de julho de 2017

Barba e cabelo


Ontem, nos vinte minutos que levou o meu corte de cabelo e aparo da barba, e pelo mesmo preço, assisti a uma vertiginosa sessão de comentário popular matosinhense. A atualidade passada em revista por dois senhores, reformados, aí pelos seus setenta anos. Um estava encostado na porta, a passar o tempo no cavaqueio, e o outro sentado no interior, com o neto, que esperava vez para fazer o seu corte de cabelo de férias. Vou tentar reproduzir uma parte do diálogo, omitindo os dichotes futebolísticos.
 
– Então, lá se foi o Rei da Cortiça...
– Agora é que vai ser uma guerra pelos quatro mil milhões...
– Quatro ou quatro e meio? Eu li que eram quatro e meio...
– Mas isso é porque ele tinha muitas ações da Bolsa. Sabe como é, nuns dias vale mil, no dia seguinte não vale nada!
– Olhe, pior é como um senhor, que não vou dizer o nome, que todos os dias vem aqui ao café do lado... É filho de uma família bastarda da Maia e não tem filhos, nem sobrinhos... Quando morrer, quem é que vai ficar com aquele dinheiro?
– É só problemas, o dinheiro... Veja lá o que aconteceu ao Rònaldo, coitado! Entrarem-lhe assim no iate, armados e tudo, a incomodar quem estava a descansar!
– E parece que o jato nem era dele, era alugado! Há qualquer coisa nessa história que está mal contada...
– Mas pior está o Lula, viu? Nove anos de cadeia...
– Um homem que, em oito anos, levantou o Brasil! Sozinho! Agora andam a persegui-lo...
– Também não é bem assim, parece que aquilo era verdade: são cem para o Estado, cem para mim... cem para mim, cem para o Estado...
– Hmmm... Mas isto traz água no bico.
– Sabe o que é que dizem lá no Brasil? Que aprenderam a roubar com os portugueses.
– Foda-se, esse brasileiros, também, acham que são os maiores. Foi o Lula que os tirou da lama! E agora querem tudo à maneira deles, querem mandar cá?
– Pois querem, mas também a gente põe-se a jeito! Não ouviu noutro dia o caramelo a dizer na televisão que agora até querem que a gente use aquela coisa da caligrafia igual à dos brasileiros?

Calaram-se, porque outro cliente que esperava estava a falar ao telemóvel, sobre uma sessão qualquer de fados que vai acontecer em Leça da Palmeira:
 
– Vou-te dizer outra coisa! Digo-te agora e vou-vos dizer na cara no dia 5 de agosto: com tantos músicos que há em Leça, fostes contratar homens do Porto?
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Foram oito euros pela barba e cabelo.

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