sexta-feira, 7 de julho de 2017

A decadência da cidade

Tenho andado às voltas com um trabalho sobre a questão das transformações ocorridas no centro histórico de Lisboa nos últimos anos - do arrendamento a preço exorbitante ao turismo, do alojamento local à gentrificação, da reabilitação urbana à especulação imobiliária, das opiniões extremadas às políticas avulsas, da demagogia à pieguice - tudo sem base de conhecimento suficiente sobre o que, realmente, se está a passar.
Por isso, achei muito oportuno o artigo de António Guerreiro, hoje, no Ípsilon-Público, intitulado "A decadência da cidade".


Como é habitual, trata-se de um exercício diletante e com uma utilidade reduzida, mas é refrescante pensar nas coisas de forma um pouco (um pouco, apenas) menos superficiais. Apesar de achar que a citação abundante de autores estrangeiros é um truque barato, sempre gosto mais de ler sobre o que pensam Carl Schmitt, Ernesto De Martino e, até, Ridley Scott (este sei quem é), do que penar com as certezas de intelectuais do calibre de um André Jordan, um Manuel Salgado ou um Rui Moreira.
Esta parece-me a parte mais impactante do artigo de António Guerreiro:
Denunciar a turistificação da cidade, como está a acontecer em Lisboa e no Porto, é um exercício quase tão inútil como querer lutar contra a globalização. Mas não podemos ignorar que transformar a cidade num “centro histórico” que deve servir para o consumo turístico e para o divertimento de fim-de-semana é uma manifestação da extrema decadência da cidade. Essa decadência não começou com o turismo: o estado de decadência de uma cidade é ainda mais visível quando já só o turismo a pode salvar.

2 comentários:

  1. A que fez, seria a transcrição que eu faria.
    Mas nem a taxinha de Rui Moreira - o dobro da de Lisboa, que tanta polémica causou na altura - vai resolver o problema... Parece que em Barcelona se está a fazer alguma coisa. E, oxalá, depois das autárquicas, os presidentes de Câmaras se resolvam a fazer qualquer coisa de imaginativo, eficaz e equilibrado. Espero que não seja o Daesh a mudar a natureza coisas...

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    1. Em Barcelona está-se a tapar o sol com a peneira, colocando trancas na porta depois da casa roubada - isto retirei do rifoneiro catalão. ;-)
      Sabe que, para mim, Lisboa só é aceitável enquanto disneilândia... No resto, a cidade corresponde a uma ideia de sociedade que me repugna, lamento dizê-lo.
      Há outra frase no texto que diz muito: "O que se transformou na cidade contemporânea foi a faculdade de habitar (que não deve ser confundida com a necessidade de ter um alojamento)...". Isto, os senhores políticos fingem não ver, insistindo apenas na questão do arrendamento e dos preços imobiliários. Mas depois usam a taxa turística para agradar aos turistas, embelezam praças a pensar nos turistas, organizam eventos a pensar nos turistas... Habitar (n)uma cidade, efetivamente, não é só ter casa (ia fazer uma posta sobre esta frase, assim já me adiantei).

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