sexta-feira, 7 de julho de 2017

A decadência da cidade (bis)



Na posta anterior, sobre o texto de António Guerreiro, destaquei uma parte, mas há outro pedaço que me parece igualmente forte - e, talvez, mais "construtivo", porque devia levar os agentes políticos e sociais, e cada um de nós, a mudar de atitude. É o seguinte trecho:
O que se transformou na cidade contemporânea foi a faculdade de habitar (que não deve ser confundida com a necessidade de ter um alojamento) [...]
É isto que me parece que muita gente ainda não entendeu, insistindo, de forma obsessiva, na questão do arrendamento e seus preços exorbitantes, na falta de de uma política de habitação dirigida às classe médias (e quantas vezes já foi demonstrado, em teoria e na prática, que as políticas públicas de tipo "estado social" tendem a piorar a situação destas classes, que não são suficientemente pobres para aceder aos benefícios sociais, mas não são suficientemente ricas para comprar ou arrendar aos preços do mercado?) ou na concorrência "desleal" do turismo?
Habitar é estar integrado no habitat. Quando as "taxas turísticas" são usadas para agradar aos visitantes e para valorizar "ativos" turísticos; quando as festas e eventos populares são vistas como oportunidades de atrair mais gente; quando um autarca diz que o "excesso" de turismo e a chegada de estrangeiros ricos para residir temporariamente o preocupam, porque "gentrificam" e "turistificam", mas logo a seguir publica uma selfie, ainda que imaginária, com a Madonna ou se vangloria, no Facebook, de ter mais um restaurante três estrelas Michelin; quando o orgulho do comércio local e de toda a vizinhança é a loja gourmet ou folclórica; quando se luta pela "escola europeia" mas se desorganiza a rede de creches; quando se prefere escrever sinalética em inglês, ao invés de fazer os turistas ler português... estamos a tratar do habitat de quem?


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