segunda-feira, 26 de junho de 2017

Os meninos de ouro

No Portugal contemporâneo há dois tipos de meninos de ouro: os futebolistas, normalmente do Sport de Lisboa, que ocasionalmente tomam a forma de conçonetistas; e os do Partido Socialista. Destes, andam dois por aí: Sócrates, o que se vai afundando, e Medina, o que se aguenta na crista da onda.


No seu romance que se chama assim, Agustina Bessa-Luís "formaliza uma ideia já anteriormente sugerida, de que o mundo está em vias de rejeitar as sociedades narcísicas, ou seja, as que são organizadas em volta do líder emocionalmente projetado e vivido" (diz a sinopse do editor). Enganava-se bem, a escritora. O nosso mundo, ao que parece, continua carente de um herói de voz grossa (ou fininha e trémula, desde que ganhe festivais).
«Nos lugares remotos do Gerês há uma planta que produz um lírio azul, planta endémica e maravilhosa. Não sei se se encontra na Serra Amarela ou nas ravinas das Terras do Bouro; pode crescer nos fojos abrigados pelo mosteiro beneditino que foi defesa fronteira. Não sei. Penso nela como sendo um olhar que a terra ergue das suas profundezas e que nos empresta para que os segredos novos nos sejam apontados. (...)
Aqui, não há personagens, há só uma confiança que se pode descobrir com a raiz da vida. Não está Ana de Cales, com a sua touca de viúva  e o ar ovino e sério; não estão os Alba Pereira nem os Wiesel, ramos dessa casta tenebrosa e amante da propriedade. Não está Francisco de Viana, ou Farina, cheio de "ribaldarias" intelectuais; nem Rosamaria, nem José Matildes, o casal ensombrado de batalhas perdidas. Nem os Marcianos, com os seus arranjos e adaptações de classes».


Guimarães & C.ª Editores. 1.ª edição: 1983.

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