terça-feira, 30 de maio de 2017

O faroeste e a disneilândia

Em Portugal adora-se a América, mas só alguma América.

Adora-se a América mítica do Faroeste. Durante décadas, as políticas públicas, explícitas e implícitas, promoveram o despovoamento das regiões do Interior. Vertiam-se umas lágrimas de crocodilo pelo nosso mundo rural, cheio de vaqueiros e bisontes, onde alguns índios sobreviviam, mas o importante eram a "competitividade", a "modernidade" e o "cosmopolitismo", que só a capital, essa "locomotiva do desenvolvimento", podia dar. "Desertificação" era palavra para entreter as audiências de intermináveis congressos.

Já a América da Disneilândia não parece tão popular entre nós. Agora, dizem-nos que há um grave problema "nacional" e a intelectualidade, a imprensa e o mundo político e artístico agitam-se: o centro histórico de Lisboa está a ser destruído pelo turismo, pelo alojamento local e pelos altos preços imobiliários. Ao contrário da "desertificação", querem que se leve a sério a "gentrificação", que é um fenómeno curioso: consiste na expulsão dos que, nas décadas anteriores, povoaram aquela área, vindos do Portugal rural.

Ora eu não me quero deixar levar na onda. Adoro a América da Disneilândia, e acho que os portugueses têm direito a uma, ainda que se chame Mouraria.


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