terça-feira, 16 de maio de 2017

O diabo na rua, no meio do redemunho...

Hoje de manhã dei por mim a escolher, para leitura de pequeno-almoço dos próximos meses (longos meses...), o romance de João Guimarães Rosa "Grande Sertão: Veredas", que nos recebe com a frase que dá título a esta posta. Ora, não pude deixar de contrastar isto com o embasbacamento que toda a imprensa matinal dedicava ao nosso primeiro-ministro, aquele que, afinal, nos traz o Paraíso.
Ocorreu-me depois, já na rua, que este Paraíso, de tão deslumbrante, mete medo. Como nos contou Goethe, Mefistófeles, também ele o diabo, prometia exatamente o mesmo ao desconfiado Fausto, enquanto lhe comprava a alma:

MEFISTÓFELES
Então já pode
no pacto conchavar-se. O que eu lhe afirmo
é que estes dias que passarmos juntos
lhe hão de por minhas artes dar tais gostos
quais os não teve alguém.
FAUSTO
Pobre diabo,
que hás de tu dar-me? O espírito de um homem
como eu sou, foi jamais compreensível
aos da tua relé? Tens iguarias
que não matam a fome; oiro que fulge,
mas que igual ao mercúrio, escapa aos dedos;
jogo em que é certa a perda; uma beldade
que até nos braços meus soltando arrulhos,
já está piscando o olho ao meu vizinho;
pompas de glória, um fumo!
O que eu preciso,
se o tens, são frutos a pender de copa
sempre frondosa, e que antes de apanhados
não tenham já por dentro o podre e os vermes.
MEFISTÓFELES
Bem; tudo isso há de ter; conte comigo
Desde agora, amiguinho, à rédea solta.
Folgar e mais folgar! Leva de escrúpulos!
Tudo quanto bem sabe, é permitido.



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