quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O outro lado do glamour


 
Leio, no Libération, uma notícia que já não é novidade: 36% dos autores de BD têm um rendimento inferior ao limiar da pobreza.


É o outro lado do glamour do Festival de Angoulême: o inquérito anual da associação Estados Gerais da Banda Desenhada revela a precariedade económica dos autores, numa época em que a literatura gráfica anda pelos píncaros da popularidade. Como diz Thierry Groensteen (um grande historiador e teórico da BD, animador dos EGBD), «enquanto sofre economicamente, a banda desenhada progride sem cessar no plano do reconhecimento simbólico, da sua afirmação como objeto cultural».
As causas? Dizem-nos que a situação resulta do excesso de produção, da concorrência, do poder absoluto dos editores, das novas formas de edição... A verdade é, em 2014, que mais de metade dos autores de BD (em França e arredores) tiveram um rendimento bruto anual inferior ao salário mínimo (que, em França, é de pouco mais de 17 mil euros anuais). Não admira que 70% deles se vejam na contingência de ter outra atividade.

 
O pior (na ótica do leitor que sou, claro) é o reconhecimento de que esta situação corresponde também a uma baixa de qualidade das obras publicadas - mesmo muitas das que ganham prémios e louvores do público. Benoît Peeters (outro estudioso e, também, autor de BD) realça o «efeito perverso do romance gráfico, que permitiu abandonar o pagamento à página» mas obriga os autores a produzir mais sem, forçosamente, serem mais bem pagos. Resultado: um trabalho que, por vezes, é mal acabado. «O desenho realista clássico, que permanece essencial, é impraticável nestas condições», conclui BP.
Eu já o tinha notado: são raras as obras dos novos autores que me satisfazem na plenitude, mesmo aquelas que partem de argumentos estimulantes, sensíveis e inovadores. Muitas vezes penso que, para a qualidade apresentada, o salário mínimo é até algo exagerado.

(Ver aqui: http://www.etatsgenerauxbd.org/)



5 comentários:

  1. Confesso que sou leitor de banda desenhada, mas daquela que me ensinou a ler, publicada em revistas como o Tintin, Spirou, Pilote, Charlie, Jacto, Jornal do Cuto e Mundo de Aventuras. A banda desenhada que se publica hoje em dia, excepto alguns autores não me consegue atrair e a novela gráfica muito menos. Concordo com o que escreve.
    Bom dia!

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    1. Bom dia! Pelo seu pseudónimo dá para ver que é simultaneamente apreciador de Paul Austero, de Alfredo Hitchcock e da editora norte-americana de comics. Eu também.
      Hoje há coisas boas na BD. O que há é demasiadas edições (na edição franco-belga multiplicou por dez o número de obras editadas anualmente, face aos saudosos tempos que refere), e torna-se difícil descortinar as boas obras. E o desequilíbrio é agora mais marcado: há virtuosos do grafismo que fazem obras infantis e há argumentistas muito bons cujas obras são servidas por desenhos indigentes. No final, voltamos sempre aos autores de que gostamos. No meu caso, já referi por aí o meu top ten, mas na realidade podia ser o top 100. Desses, há muitos contemporâneos e até jovens, mas prefiro sempre voltar a Pratt, Tardi, Bilal, Hermann...
      Curiosamente, tenho grande simpatia pelo "romance gráfico", o livro completo, as cento e tal páginas, a narrativa densa... Mas, claro, a nostalgia da publicação semanal ou mensal ainda cá mora. Encontrei o melhor desses mundos com a revista (A Suivre).

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    3. Por acaso o estilo do Paul A. tem uma certa secura... E Hitchcock podia bem ser Alfredo.

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  2. Confesso que acertou na sua leitura: sou fan de Alfred Hitchcock e de Paul Auster, desde que o seu primeiro livro foi editado em Portugal ainda na Difusão Cultural.
    Irei passando por aqui. Obrigado pela sua resposta.
    Boa Tarde!

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