terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A Teoria do Caos com pinceladas de destruição criativa



A Academia das Ciências de Lisboa refletiu longamente sobre a ortografia da língua portuguesa e concluiu que «a escrita é uma convenção, que tem por objetivo a representação da linguagem falada, e está, por isso, sujeita a mudanças. Encaramos, por isso, com naturalidade algumas alterações». (Apesar de tudo, esta é uma posição corajosa: para muitas vozes públicas, mexer na forma de escrever algumas palavras não passa de uma traição à Pátria).
Concluída a reflexão, alguns membros da ACL aprovaram e divulgaram um opúsculo a que chamaram «Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Para uma fixação da nomenclatura do Vocabulário e do Dicionário da Academia)». Ao lê-lo, entendemos a metodologia «científica» que seguiram: basicamente, consultaram tudo o que se vai escrevendo nas redes sociais e nas páginas do Público e, na maior parte dos casos, propõem que os casos «polémicos» sejam revertidos para a norma ortográfica anterior.
De certa forma, os nossos académicos honram os seus pergaminhos e inscrevem as suas conclusões numa linha teórica que se vai impondo como modelo explicativo dos fenómenos reais: a Teoria do Caos. Já referi por várias vezes esta Teoria aqui no Linguado, mas recordo que ela «trata de sistemas complexos e dinâmicos rigorosamente deterministas, mas que apresentam um fenómeno fundamental de instabilidade, chamado sensibilidade às condições iniciais, que, modulando uma propriedade suplementar de recorrência, torna-os não previsíveis na prática a longo prazo». (Recorri à Wikipédia, o que me parece ser suficiente para manter o nível).
Neste caso, as condições iniciais são, como é evidente, as regras da ortografia de 1945 (antes disso não havia Universo). E os atratores estranhos, essas figuras tão características da Teoria do Caos, são alguns acentos e consoantes mudas. Pelo caminho, impera o acaso, que é a regra com que a ACL rege as suas propostas.
Mas, sendo cientistas, não se ficaram por aqui: a Teoria do Caos, só por si, não seria suficiente para explicar estes fenómenos complexos, pelo que notamos, nestes contributos, a influência de Joseph Schumpeter e do seu conceito de destruição criativa (se quiserem consultar a Wikipédia, estejam à vontade).

Para ilustrar esta ideia, vejamos um exemplo. Na sua secção 2. Sobre as sequências consonânticas, propõe-se o seguinte (entre outras alíneas focando casos específicos que se vão contradizendo - mas apenas na aparência, porque no final hão de prevalecer os atratores estranhos e tudo será Perfeito):


Escrevem aceção vs. acessão e logo, na mesma frase, recepção vs. recessão. Podiam ter optado por acepção vs. acessão ou por receção vs. recessão, mas isso era ser sistemático - e na Teoria do Caos a única coisa sistemática é que nunca sabemos exatamente o que vai acontecer a seguir. Mas a cereja no topo do bolo, que é também uma das meninas dos olhos dos exaltados defensores das ortografias arcaicas (desde que sejam as que eles aprenderam na escola, porque antes disso não havia Universo), é aquela referência a «espetador (o que espeta)». Já fui muitas vezes confirmar aos dicionários online e em papel: a palavra espetador, com aquele sentido de «o que espeta», não existe. Nem na Infopédia, nem no Priberam, nem no Porto Editora (7.ª edição), que são os que tenho aqui à mão. Passou a existir, mas como uma grafia alternativa da palavra espectador, apenas depois do AO'90. Com o sentido que os nossos cientistas leram no Facebook e nos artigos de Nuno Pacheco ou Pacheco Pereira, trata-se de uma palavra inventada.
Que vergonha, perverter assim as ideias de Schumpeter, travestindo-as de criação destrutiva. É o caos!
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Consulte aqui o opúsculo da ACL.


4 comentários:

  1. Mas não foi a mesma ACL que ajudou a redigir e deu aval ao AO90? Pois...

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    1. É possível. Mas leio nos jornais que, ontem, no Parlamento, o presidente da ACL, Artur Anselmo, "deixou claro que a ACL não foi ouvida enquanto instituição neste processo" porque o seu presidente à data (Malaca Casteleiro) se envolveu sem convocar sequer plenários. E depois deu uma desculpa qualquer de "falta de verbas".

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