terça-feira, 8 de novembro de 2016

Os ignorantes que sabem tudo

Todos sabemos que o que conta são as web summits, apesar de sermos um país de call centres e galos com lampadinhas. Sabemos também que a porca austeridade neoliberal matou portugueses e favoreceu os ricos - felizmente, tal aberração acabou, como o orçamento de Estado 2017 e a contratação dos geniais gestores da CGD provam.
Estou a brincar. Sabemos muito pouco, e por alguma razão as estatísticas teimam em dizer que estamos entre os menos qualificados em todo o mundo ocidental. Mas já é altura de mudar.
Para isso, convinha que, em vez de marcharmos ao ritmo panfletário do governo e da comunicação social lisboeta (porta-vozes dos novos donos disto tudo, que são as clientelas alimentadas pelos nossos impostos - para satisfação e por imposição das forças políticas totalitárias da extrema esquerda nacionalista), nos informássemos e refletíssemos um pouco.
Eu sei que, para a «maioria» dos portugueses, informar-se e pensar é um esforço insano e injustificado, mas acredito que alguns gostarão de ler este «destaque» do Instituto Nacional de Estatística sobre o Índice de Bem-estar da população portuguesa para 2015. Para aguçar o apetite, aqui fica o resumo que o próprio INE faz:
O Índice de Bem-estar (IBE) da população portuguesa evoluiu positivamente entre 2004 e 2011, tendo registado uma inflexão em 2012. Recuperou no ano seguinte e, em 2014, manteve essa recuperação, estimando-se uma continuação de crescimento para 2015, ano em que terá atingido os 118,4.
O INE apresenta os principais resultados da quarta edição do estudo “Índice de Bem-estar para Portugal”, o qual tem por base o ano de 2004 (2004=100). Este estudo baseia-se em metodologia definida por um conjunto de organizações internacionais, nomeadamente a OCDE e o Eurostat, aplicada por vários Institutos de Estatística. O Índice agora divulgado analisa o período 2004 - 2015, integrando resultados preliminares para 2015.
O IBE observa a evolução do bem-estar da população, recorrendo a dois índices sintéticos que traduzem duas perspetivas de análise: ‘Condições materiais de vida’ e ‘Qualidade de vida’.
Estes dois índices, que integram o IBE, têm evoluído genericamente em sentidos opostos, com o primeiro a evidenciar uma tendência decrescente, e o segundo a apresentar uma tendência crescente; a partir de 2013 iniciaram uma evolução no mesmo sentido: o da melhoria do bem-estar, em Portugal.
Dos 10 domínios que integram o IBE, a ‘Educação’, o ‘Ambiente’ e a ‘Participação cívica e governação’ são as componentes do bem-estar com evolução mais favorável no período analisado. Inversamente, os domínios ‘Trabalho e remuneração’ e ‘Vulnerabilidade económica’ são aqueles cuja evolução foi mais desfavorável.
Querem um desenho, para facilitar a compreensão? Seja:



Em resumo: os anos de austeridade não pioraram o bem-estar dos portugueses. Não pioraram a qualidade de vida. Se houve quebra do lado das condições materiais de vida, ela vem já do tempo dos governos de José Sócrates (os anos dourados) - e se a política dita «de austeridade» trouxe alguma novidade foi, precisamente, a da inversão de uma tendência negativa.
Há narrativas muito ao gosto dos DDT, mas a verdade é que nem todos somos pensionistas, trabalhadores do Estado ou gestores públicos altamente «competentes». Para a maioria (e sem querer ser cruel para os que sofreram com o desemprego e a emigração), ainda que prefiram negar a realidade e desejem o desconhecido, as coisas começaram a melhorar na noite negra da Troica. E não me perguntem por notícias sobre isto na imprensa portuguesa.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Esteja à vontade para comentar. E escreva na língua que lhe apetecer, mas escreva bem!