quinta-feira, 3 de novembro de 2016

As cidades impossíveis 3: Esquizofrenópolis





Naquela manhã, o homem caminhava pelas ruas ainda em sossego. Com a mochila às costas, andando devagar, ia reconhecendo os pedaços da sua cidade: as lojas que abriam, o cheiro fresco dos jardins, os olhos já cansados das mães com crianças pela mão, as sombras dos edifícios ao sol matinal, o ruído do tráfego…

Entrou no edifício e esperou pelo elevador, trocando ocasionais saudações mecânicas com outros como ele. Subiu ao sétimo piso, pousou a mochila na sua secretária, disse bom dia aos colegas e foi à copa buscar uma caneca cheia de café açucarado. Suspirando, sentou-se e ligou o computador.

No seu pensamento havia outro homem, parecido com ele, que também saía de casa, todas as manhãs, com passos lentos e olhar melancólico. Esse homem caminhava pelas ruas e reconhecia, em cada novo dia, os dias anteriores. Entrava no edifício, subia ao escritório e, suspirando, fazia rebentar a bomba que trazia na mochila.

6 comentários:

  1. O dito "doppelganger" de Jean-Paul...

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    1. Este era alemão (J. P. Richter) e é considerado como o criador do "alter ego", a nível literário, antes do dr Jeckil e mr. Hyde.

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    2. Inspirado, certamente, pelos trabalhos do compatriota F. Anton Mesmer.
      Belmondo veio-me de um texto qualquer que li recentemente sobre Jean-Luc Godard: o ator representou, em muitos filmes, o "alter ego" do realizador.

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