quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Voltei a gostar de ler o MEC



Confesso que andava saturado da prosa fútil de Miguel Esteves Cardoso e, nos últimos dois anos, apenas passei os olhos pela sua crónica diária no Público. Mas esta semana reconciliei-me com ele. Primeiro, ao de leve, com o seu belo manifesto contra a xenofobia, disfarçado de incomodidade com coisas que vai lendo nas suas revistas inglesas:
«É sempre mau sinal quando começam a contar os estrangeiros. É sempre mau sinal quando se começa a dividir as pessoas em elas e nós. É sempre mau sinal quando um fabricante de sofás, acusado de empregar mais estrangeiros do que britânicos, responde que é mentira e apresenta provas de que emprega mais britânicos. A resposta correcta seria mandá-la dar uma volta ao bilhar grande.»
E ontem, com este tiro na mouche: na sua coluna falava-nos de Leonard Cohen, mas pela voz de Bob Dylan, chamando a atenção para um artigo na The New Yorker. Robert Zimmerman fazendo vénias a Leonard Cohen - eis um cenário digno do Arpose. (Cohen comentou esse artigo da TNY retribuindo: «Não vou dar opinião sobre o que ele disse, mas sim sobre ter recebido o Prémio Nobel, o que para mim foi como dar uma medalha ao monte Evereste por ser a montanha mais alta.»)

Amanhã, é certo que a homenagem de MEC a Dylan, Nobel da Literatura de 2016, será belíssima. Já estou a adivinhar (engolindo a minha opinião sobre a bielorrussa que, ignorante, me atrevi a menorizar na posta anterior):
«Está fora de moda falar na eternidade, mas tanto Alexievich como Dylan serão imortais. Escrever é escrever. Um mau poeta será sempre pior do que um bom jornalista. Dylan é inegavelmente um grande escritor. A Academia sueca está a usar o Prémio Nobel para restaurar a literatura. Tomara que regresse à literatura oral. As histórias que não são escritas também podem ser grandes e imortais.»
Um Nobel inesperado, exceto para videntes como MEC.

2 comentários:

  1. É tudo uma questão de desfasamento: MEC começou a falar mal, quando eu já tinha deixado de o fazer (para me sentir homenzinho, que não para vender livros...). Depois é o exemplo mais acabado do nacional-porreirismo ("adorei, adorei, adorei!")lusitano. Finalmente, a publicidade encapotada às escancaras, que faz desde "O Independente". Para mim, chega.

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    1. ... da próxima vez, apago este tipo de comentários... ;-)

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