quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Exaltação nacional (bis)

António Guterres ao apresentar o programa perante a Assembleia Geral  (Manuel Elias - Público)
Antes que Guterres saia da ONU para se empregar como secretário-geral não executivo do Clube de Bilderberg, ou algo que o valha, transformando a nossa «vitória coletiva» em mais uma «vergonha coletiva», nada como falar já mal do homem. Depois poderei dizer (o que é verdade) que «ele nunca me enganou».

Vou usar palavras alheias. A minha amiga M. A. R. chamou-me a atenção para as referências que o arquiteto Saraiva faz a António Guterres no seu recente livro «Eu e os políticos». Claro que o facto de serem familiares — «ainda éramos primos (a família dele era de Donas, na Beira Baixa, donde também era a minha, do lado da minha avó paterna)» — pode ter influenciado o que o arquiteto escreveu. E também não me sossega muito que ele assegure que «Esta conversa teve como testemunhas as paredes da Versailles» — como atestado de autenticidade, isto não me parece grande coisa.

Usando palavras alheias vou, ainda assim, ter alguma decência. Não vou cometer a indelicadeza de repetir aqui as palavras que Saraiva «cita» de Mário Soares a referir-se a Guterres («Sem tomates não se vai a lado nenhum.»), até porque Soares estava completamente enganado — ou então Guterres até tem uns cojones monumentais. Mas acho que estas referências seguintes, para além de literariamente sofisticadas, são verosímeis e mostram que o homem tem o perfil requerido para a ONU. Reparem:
E mais próximo das eleições usará uma expressão que lhe ouvi noutras alturas e fará escola: «Basta‑me fazer de morto para ser primeiro‑ministro.»
Certo dia, antes de chegar a primeiro‑ministro, diz‑me (encostado ao balcão do Pabe enquanto esperamos por mesa): «Descobri que a maior parte dos problemas se resolvem por si próprios. Sem ser preciso fazer nada.»
Pergunto‑lhe: «Como faz para o cabelo já não lhe cair para a testa? Põe laca?» Noto nele uma hesitação que não dura mais do que uma fracção de segundo e depois responde secamente. «Não.» Percebo que sim. Mas essa negativa mostra que, apesar de toda a sua simpatia superficial, não confia inteiramente em mim. Tem medo que o vá escrever no jornal.
Uma última nota. Sendo um homem aparentemente sem vícios — não fumava nem bebia —, Guterres tinha um «apelo» a que não conseguia resistir: os chocolates. «Tenho um problema com o controlo do peso: passo as noites a comer chocolates», disse‑me um dia. Todos os seres humanos têm um ponto fraco...

Sem comentários:

Enviar um comentário

Esteja à vontade para comentar. E escreva na língua que lhe apetecer, mas escreva bem!