sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Com a devida vénia, eis Alexandre O'Neill a dizer que Dylan é um excelente poeta



Retiro da edição de hoje do jornal i este texto do poeta Alexandre O'Neill, publicado ainda no tempo da Outra Senhora.
O “fanhoso” do Minnesota
     Mais do que uma característica vocal, a «fanhosez» (real ou por mim imaginada?) de Bob Dylan é uma qualidade estilística alimentada por uma recusa, um a contra-pelo de quem sabe, muito conscientemente, conter-se na efusão do sentimento e, até, «desmentir» no cantar a palavra que canta. Não que ele desminta a palavra a nível do conceito e da «mensagem». O que acontece é que Dylan a rejeita como lugar-comum cantabile, como repositório-comum de sentimentos pré-catalogados e como «air de bravoure». Diríamos que Dylan não maiusculiza nada. As massas verbais que, sem ornatos, debita dão conta de muita coisa bela, grande, divertida ou terrível, mas a força comunicante do trovador está, principalmente, no partido que ele tira da monotonia, repetição e progressão «fanhosas» de um texto maravilhosamente aliado à música. Este é um caminho de voluntária pobreza. Um mínimo de suportes e de efeitos, para um máximo de comunicação verbal. «Sentir? Sinta quem ouve!», apetece dizer, parafraseando Fernando Pessoa, a propósito do discurso de Bob Dylan.
     Isso a que eu chamo de «fanhosez», que musicalmente deve ter uma explicação, muito em particular no campo da balada, ganha em Dylan as características de um estilo. Para muitos, tal estilo não passa de maneirismo. Mas Dylan sabe, com e depois de Woody Guthrie, de Pete Seeger e de Brassens, que a palavra só move mundos quando é entendida na sua integridade. E Dylan é, também, um excelente poeta, isto é, alguém capaz de entender que «o lirismo é o desenvolvimento de um protesto». Do «fanhoso» do Minnesota não se poderá dizer, como Flaubert de um cantor de ópera sua criatura: «Havia algo nele de cabeleireiro e toureiro».
     Ponham nele os ouvidos certos baladeiros portugueses e espanhóis que fazem das palavras vazadouros dos mais simplesmente sentimentos.
in “A Capital”,
1 de janeiro de 1974

2 comentários:

  1. O pai de todos, com a voz a cair da tripeça, ainda foi o Marceneiro... O'Neill, neste caso, foi injusto.

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