quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Escrever em legítima defesa


O escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte dá uma entrevista ao Público (a Paulo Moura) que vale a pena ler. É de uma violência pouco habitual, disparando sobre a educação contemporânea, o Islão e a Igreja Católica, a mediocridade de alguns escritores e de muitos leitores, as vagas de turistas, a Europa decadente, o divórcio Portugal - Espanha... Um tratado, que mais parece uma sessão de desabafo no sofá de um psicanalista. Aguçou-me o apetite para ler o seu último romance (Homens Bons, editado pela ASA).
Deixo aqui dois ou três excertos mais grosseiros.

Os jovens, com as tecnologias…
A Internet é uma ferramenta estupenda, mas não hierarquiza a informação. O que eu ou Vargas Llosa ou Saramago possamos dizer, e o que um filho da puta analfabeto possa dizer estão ao mesmo nível. Não há diferença. Aliás, o que disser o filho da puta analfabeto terá mais repercussão, porque será mais violento.
Mas a literatura está em crise…
Eu não estou em crise.
Qual é a sua explicação para isso?
Às vezes pego num livro, e penso: este tipo, para que escreve ele? A quem importa saber que ele se levantou de manhã, que tem uma vida triste, que a mulher o deixou, que o seu filho é drogado, que se sente asfixiado pela vida… Para isso não vale a pena ler. Basta olhar em volta. O que eu quero é que me contem histórias interessantes, que me façam reflectir, pensar, sonhar. Que mudem a minha vida. Se quando terminar a leitura de um livro a minha vida não tiver mudado para melhor, ou é um mau livro ou eu sou um mau leitor. Um livro que não muda o olhar do leitor é uma merda de livro. E o mundo está cheio de merdas de livros que não mudam nada. São apenas fruto da vaidade onanista de autores que não têm nada para dizer.
As pessoas não lêem porque os livros não são interessantes?
Se tens um escritor que viveu, viajou, foi às guerras, fodeu mulheres, em África, na América, na Ásia, durante 20 anos. Teve medo, dormiu em quartos hotel onde lhe passavam baratas por cima, cagou sangue, teve amigos leais, conheceu assassinos e heróis, esse escritor tem coisas para contar. Mas quando um filho da puta que não fez mais nada do que beber copos num bar se atreve a escrever 500 páginas sobre a sua interessante personalidade, vá apanhar no cu!







2 comentários:

  1. O Homem estava mesmo zangado!...
    Noutro registo, eu concordo com quase tudo que ele diz, nestes excertos que escolheu.
    Irei ler a entrevista na íntegra, lá mais para a tarde e com vagar.

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    Respostas
    1. É bastante radical, revoltado. Talvez excessivamente "reacionário".

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