sexta-feira, 22 de julho de 2016

Europa, Islão, revolta e radicalismo

Hoje, logo pela manhã, li três textos sobre o Ocidente, o Islão e o terrorismo (nada como começar um dia de verão com estas coisas). O primeiro, no Público, por António Guerreiro (A islamização da revolta). O segundo, no Diário de Notícias, por Miguel Angel Belloso (Façamos a guerra!). Este texto levou-me ao terceiro artigo, que é uma entrevista, no jornal espanhol El Mundo, com o politólogo e teórico da democracia italiano Giovanni Sartori (que o jornal intitula «Si damos el voto a los inmigrantes impondrán la 'sharía' en Europa»).

Do artigo de MAB, radical e primário, não vale a pena falar muito, porque ele se resume a variações em torno da entrevista de Sartori e da ideia de que estamos em guerra, tendo esta sido declarada pelo Islão - uma religião radical, que inspira homens que querem destruir a Liberdade e a Democracia. Esta religião-ideologia deve ser combatida, dentro e fora das nossas fronteiras, com os meios que forem necessários.

Se MAB não merece mais comentários, já Sartori, um conceituado cientista político, Comendador no Brasil e Prémio Príncipe das Astúrias para as Ciências Sociais (2005) em Espanha, surpreendeu-me. Entre guerras com drones, rebentamento de barcos antes de eles trazerem refugiados e negação do direito de voto a imigrantes na Europa, há por ali de tudo. «Em tempo de guerra não se podem respeitar as regras da paz, porque se o fizermos perdemo-la. À guerra há que responder com as regras da guerra». Enfim, o tipo é que é o cientista, mas a mim parece-me um teórico daqueles que não se preocupam a olhar para a realidade e para quem os dados objetivos são um detalhe aborrecido.

António Guerreiro critica este tipo de leitura da situação, contrapondo que o ataque ao nosso modo de vida ocidental é sinal de revolta e inadaptação, que não vem de fora mas sim de dentro e que «a guerra contra o terrorismo não tem feito outra coisa do que tomar os efeitos pelas causas e as margens pelo centro». Não haveria «uma radicalização do Islamismo», mas antes «a islamização da revolta radical, uma estranha situação em que o Islamismo se torna uma maneira de exprimir uma recusa do mundo e até um ódio de si (...)» Neste sentido, grande parte dos atentados recentes na Europa e nos Estados Unidos seriam manifestações de «uma revolta que pode ter apenas a ver com um conflito pessoal», perpetradas por indivíduos como o autor do atentado de Orlando, «em conflito profundo com a sua sexualidade e quis resolver as suas pulsões através do mandamento ascético do terrorismo: “Morre!”» ou o de Nice, «do qual não se conhece qualquer ligação ao Islão religioso nem ao Islamismo político radical. E cujo “modo de vida” conhecido parece mais consentâneo com a paixão narcísica do Ocidente do que com a paixão ascética do Islão.» AG compara os seus atos ao do «piloto alemão em luta contra a depressão».
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Eu tendo a concordar com esta leitura - afinal, os terroristas de que se fala são belgas, franceses, americanos... Mas quando leio a imprensa francesa a desmentir AG («Attaque de Nice: un projet "mûri depuis plusieurs mois" et plusieurs complices» ou «De nouveaux éléments montrent que l’attentat a été préparé de longue date, et en groupe.»), as minhas certezas vacilam. Não que me apeteça alinhar com Belloso e Sartori, mas às tantas eles até têm meia razão. Há dois fenómenos diferentes que, infelizmente, se cruzam numa esplanada ou num aeroporto, mesmo à nossa frente.



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