terça-feira, 21 de junho de 2016

Os arquitetos são o retrato do país, ou vice-versa

FERNANDO VELUDO/LUSA
Variações sobre Eduardo Souto de Moura e uma notícia no Observador.


1. Há arquitetos, há arquitetura e há retrospectivas. O Observador começa por se desacreditar na ortografia.

2. Muito do que há de feio no país deve-se em grande medida aos arquitetos, incluindo os arquitetos do regime, de todos os regimes, como Souto de Moura. Felizmente, há outros arquitetos, os arquitetos paisagistas e os engenheiros, para que o país não esteja um nojo completo, provavelmente coberto de placas áridas de granito ou com betão de mil e uma cores, mas sem um pingo de verdadeiro verde.

3. Souto de Moura resume bem o que é Portugal (e porque é um país feio): não gosta de trabalhar fora de Portugal, já que a cultura profissional de outros países limita a criatividade.

4. Em discurso direto:
«Estou a trabalhar muito lá fora e na primeira reunião dão-me o programa e apresentam-me logo o economista. Os projetos lá fora ficam muito pior do que cá, acho eu. Nem gosto de trabalhar lá fora, porque não controlo. Aqui não, falo com os pedreiros. Há uma acessibilidade diferente. Depois, por temperamento, os portugueses desenrascam-se e acreditam e deixam para a última. É como no futebol. Lá fora, não, é tudo programado. Se estiver mal, fica mal, se estiver bem, fica bem. Não há hipótese de rever nem pensar e atrasar. Nunca há retorno, porque o retorno dá demora.»
 5. Ao contrário do que Souto Moura diz, lá fora também se pode ser criativo, mantendo o profissionalismo. Não se pode é ser prima-dona em projetos públicos. Falar com os pedreiros, como ele diz, soa a capricho numa obra menor de Jean Genet (isto, claro, se Genet tivesse obras menores).

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