domingo, 1 de maio de 2016

O curso dos remédios

-Home', já fizeste o curso dos remédios? - pergunta um lavrador a outro, no meio da multidão que enche a Praça do Gado.
É domingo e, à minha volta, transacionam-se plantios, flores, bezerras. O sol vai-se instalando, ainda que titubeante, e já se começa a respirar de outra maneira. Mas este senhor rubicundo, com o seu boné da América, traz uma demanda.
- Home', já fizeste o curso dos remédios? - vai perguntando, numa atarantação.
Uma lei qualquer, dessas que fazem os burocratas, impôs a realização de um curso a quem precise de usar sulfatos e adubos nas suas explorações. E as inscrições são tantas que apenas uma parte deles pôde fazê-lo ainda.
Até que um:
- Eh, huóme, toma lá calma. Já estás inscrito?
- Há que tempos! - exclama o rubicundo.
- Então podes usar à vontade. Enquanto não te chamarem, estás autorizado.
É um alívio para o velhote, mas entretanto eu já desliguei. Lembro-me da Família Prudêncio e daquele que, no anúncio da nossa meninice, não comia, não bebia nem fumava ao preparar e aplicar os tóxicos.
«Faça como o senhor Prudêncio: use os pesticidas com cuidado!», dizia o slogan. Era tão mais simples, o mundo da minha infância.

Joel Neto, na sua crónica A vida no campo, no Diário de Notícias de 1 de maio de 2016


Pelo menos 89 câmaras municipais (29% do total) utilizam glifosato, um pesticida potencialmente cancerígeno e que está à venda nos supermercados. Fazem-no para matar ervas em jardins, passeios, estradas e cemitérios. O produto é também muito usado na agricultura para preparar os terrenos para cultivo. Em 2014 venderam-se em Portugal 1600 toneladas, o que o torna um dos mais usados no país. (...) Em março de 2015, a Agência Internacional para a Investigação sobre o Cancro da Organização Mundial de Saúde declarou o glifosato como «carcinogéneo provável para o ser humano».
De uma notícia, no mesmo dia 1 de maio, no mesmo Diário de Notícias.

Um estudo realizado com 26 voluntários portugueses, das regiões Norte e Centro do País, detetou a presença do herbicida glifosato - considerado «potencialmente cancerígeno» - em todos os casos, sendo que a concentração média de 26,2 mg/l por pessoa é cerca de «vinte vezes superior"» às que são encontradas, por exemplo, em cidadãos suíços e alemães.
De uma notícia, no dia 29 de abril, no mesmo Diário de Notícias.

Não podemos estranhar o empenho do Bloco de Esquerda na proibição do glifosato. Basta sair das fronteiras pequeninas da nossa imprensa para entender algumas coisas. Esta substância é a menina dos olhos da multinacional americana Monsanto, logo um alvo a abater pelos populistas de esquerda. E os boatos de que o lóbi da Bayer está forte na Europa (a Bayer tem um substituto qualquer que, naturalmente, será beneficiado quando o glifosato for proibido - ganhando meia dúzia de anos até esse mesmo substituto ser proibido também) e de que estas movimentações são apenas a antecâmara de um meganegócio global no setor, deviam levar-nos a olhar para a "honestidade" destes grupos políticos com outros olhos. Quem financia, hoje, esta internacional comunista-ecologista, que vai de Ségolène Royal a Catarina Martins? A União Soviética, famosa pelo apoio que dava a movimentos como o Greenpeace, já se foi há muito tempo...

Mas isso não impede que se faça a pergunta: onde anda o senhor Prudêncio, que não se candidatou a nenhuma Câmara Municipal? Os responsáveis políticos e técnicos do nosso estado social não fizeram o curso dos remédios? Ou fizeram, mas foi «à Relvas», como se impõe nestes casos de herbicidas (ou homicidas, parece que vem a dar no mesmo)?




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