terça-feira, 10 de maio de 2016

A minha palavra não é folclore

O ministro da Cultura e Indústrias Criativas de Cabo Verde, Abraão Vicente, defendeu, ontem, que qualquer decisão relativa ao Acordo Ortográfico não pode ser uma decisão leviana resultante de opiniões de políticos que estão transitoriamente nos cargos. Fê-lo no mesmo dia em que o secretário-executivo da CPLP, um moçambicano, disse que não há volta atrás na questão do Acordo Ortográfico, pois este está a seguir o seu caminho, e em que o ministro das Relações Exteriores de Angola afirmou que Angola e Moçambique registaram alguns progressos para a ratificação do Acordo. Todos juntaram a sua voz à do ministro da Cultura de Moçambique, que afirmou que o país vai ratificar o Acordo, quando for oportuno.

Estas foram as reações à referência que Marcelo Rebelo de Sousa fez ao eventual reequacionamento da posição portuguesa sobre o assunto. Mas nem é tanto a questão do Acordo, que lá vai seguindo o seu caminho, que quero destacar. O que interessa, nestas palavras, é que são um aviso, ou um apelo, aos portugueses de boa palavra. Tal como na sua escrita, o Professor deve distinguir, sempre que abrir a boca, se está a falar como o cidadão Marcelo ou como o Presidente da República Portuguesa. É que, neste segundo caso, convém que respeite os acordos internacionais, assinados por todos os Estados de boa-fé, e se deixe de deitar foguetes que podem comprometer a convivência entre povos e fazer os restantes portugueses passar por uns farsolas em que não se pode confiar.

O ministro cabo-verdiano lembrou, bem, que a palavra e a assinatura dos portugueses tem de valer mais do que as leviandades do cidadão que, transitoriamente, ocupa um cargo político, por muito folclórico que seja esse cargo (ou o cidadão).

Foto: João Relvas/LUSA

2 comentários:

  1. As palavras do ministro cabo-verdiano também podem ser interpretadas no sentido inverso, ou seja, de contestação a quem impôs este acordo, até porque fala em critérios científicos que, como se sabe, não foram os que presidiram a todo o processo.

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    1. O ministro está, no fundo, a dizer que qualquer volta atrás deve seguir a mesma metodologia que levou à elaboração, discussão, aprovação e aplicação do Acordo.
      Houve, ao contrário do que diz, um conjunto de cientistas-técnicos devidamente habilitados que prepararam a proposta. Houve discussão no meio científico, político e diplomático - e, aceitando que a sociedade civil não participou muito ativamente, isso deve-se sobretudo a três fatores: (i) estamos a falar de outra época, dos anos 1980, em que as redes sociais e Internet não existiam; (ii) ninguém costuma ligar muito a reformas que se anunciam para o longo prazo, e só se começaram a notar verdadeiras manifestações de opinião mais de vinte anos depois da assinatura (20 anos!); (iii) e as vedetas mediáticas carentes de afirmação pública só entraram, verdadeiramente, em cena trinta anos após a assinatura (30 anos!). É, portanto, natural o que se está a passar. As resistências começaram quando se passou o Acordo à prática, como acontece sempre - e especialmente em Portugal, onde a população é conservadora mas vulnerável a modas.
      Penso que as palavras do ministro cabo-verdiano, e dos restantes políticos (também transitórios!) dos PALOP que se pronunciaram, devem ser assim interpretadas: isto foi um Acordo entre Estados, todos estamos a fazer o nosso caminho e não achamos conveniente que uma das partes não dê às restantes a oportunidade de avaliar por si se o AO lhe convém, de que adaptações ou alterações necessita, etc. No fundo, reconhecendo a importância de ter Portugal em qualquer decisão sobre a língua comum (porque também podiam dizer: querem sair? Pois saiam, que nós por cá ficamos), eles dizem-nos: não faltem à vossa palavra, à vossa obrigação, de permanecer connosco nas decisões sobre o que interessa a todos.
      E Marcelo, talvez ouvindo apenas o seu conselheiro para assuntos culturais, não entendeu isto. Fez mal, nestes casos escutar o conselheiro para assuntos diplomáticos também é importante. Ou o afeto e o respeito pelos nossos países irmãos.

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