sexta-feira, 13 de maio de 2016

A hipervalorização da letra escrita


1. Esta semana voltou a invocar-se Camões, que já foi Camoens e escrevia sutil e Occidental. Foi invocado, é certo, pelos seus admiradores das redes sociais e das colunas nos jornais, a maioria dos quais, um dia e tendo tempo, vão ler Os Lusíadas ou uns sonetos. São os leitores e os colunistas «médios», que conhecem Camões, sobretudo, pela sua obra traduzida por Vasco Graça Moura, pois só assim se entende que confundam o génio de um Artista com a ortografia que ele usava.

2. Há, certamente, uma relação forte entre a frase escrita e a frase dita. Entre a palavra grafada e a palavra falada. Mas o que está na ordem do dia é a relação, menos evidente, entre a letra representada e a letra pronunciada. Poucos destes novos linguistas se preocupam com a pobreza deplorável do que se escreve e se diz, mas muitos sentem o seu mundo desabar porque deixam de ser lingüistas.

3. A História começou quando foi inventada a escrita. Mas a Humanidade distinguiu-se no Reino Animal quando conseguiu dar nomes às coisas, falá-las, imaginar e contar histórias. A Linguagem surgiu das Ideias, a escrita e o alfabeto vieram depois: tecnologias úteis, bonitas, plásticas. Mas tecnologias.

4. Certamente, a ortografia é também um símbolo cultural e um triunfo do intelecto, e todos temos pena que se tenha perdido, há muitos séculos, a relação entre as palavras que escrevemos e as palavras originais. Mas isso é da natureza humana e das coisas: os símbolos servem para representar o mundo em que se vive, ou o que se viveu, de forma que todos compreendam. Os acontecimentos, os sentimentos, os conceitos, a linguagem, as gramáticas, as frases, as palavras, as letras: tudo muda.

5. Não perde completitude o afeto sem o c mudo.


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