sexta-feira, 15 de abril de 2016

Os verdes relvas do nosso país


É anunciado em parangonas: o novo ministro, afinal, não é embaixador. O Supremo Tribunal Administrativo anulou a sua "promoção", há uns anos, por falta de fundamentação no diploma que lhe atribuía a categoria.
 
Não é que a coisa seja muito relevante em si, é apenas uma frivolidade, mais um não-assunto. Para ministro da cultura não é costume sermos muito exigentes, e tudo está bem se o senhor for um bom ministro, que é a forma que as elites têm de dizer: se tiver falas suaves, ostentar um sorriso permanente, escrever uns poemas e se der com gente bem.


Castro Mendes tem isto tudo e até viajou, uma vez, ao lado de Maria João Avillez, num avião para o Brasil. É verdade, foi uma experiência maravilhosa, é ela quem o escreve no Observador, pois lá no Rio teve oportunidade de estar com ele num sarau e viu-o «rodeado de um suculento lote de nomes da política, da literatura, das artes, da música, do jornalismo, do humor, numa absolutamente irresistível mistura de festa, espírito e génio», a que se seguiu «lauta e vibrante ceia, [onde] Luís Felipe Castro Mendes pôde conhecer e privar com todo este belo mundo. Iniciando aí mesmo e nessa noite uma aventura diplomática mas também política, também cultural, também humana». Na sua coluna, MJA não deixa de temer pelo futuro do poeta e diplomata no mundo impiedoso da baixa política cultural lisboeta: «O meio cultural não se comoverá com a delicadeza das suas boas maneiras e não se sabe se os grãos de sabedoria que adubaram a sua carreira encontrarão aqui solo adequado na complexidade da empreitada».
 

Bem, mas afinal, parece que o homem ainda não é embaixador encartado, e corrigiu-se a coisa lá nos currículos que se publicam nos sites oficiais, assim meio à pressa. Quem não deve, não teme, diz-se. Assim, fica a impressão de termos aqui uma espécie de Relvas, de Sócrates, alguém que finge ser o que não é, ou aceita que o tratem como tal - por muito jeitoso que seja para a função, cai mal.
 

O próximo passo é descobrir que também não é poeta. Dessas coisas eu não falo, que os há mais habilitados. O crítico António Guerreiro, no Público, já nos explicou que é, e dos bons. Em tempos, chamou à sua poesia «A antiga música» e escreveu: «Uma poesia de alcance intempestivo, que salta para fora do seu tempo de maneira a interrogá-lo e a resgatar o que nele se perdeu». Eu prefiro deixar-vos com um exemplo.
A religião do meu tempo 
Sim, meus caros, é mágoa, é desalento
e se uma leitora ao menos der por isso
vale a pena fingir
o que deveras sente. 
Os toldos vermelhos fecharam-se nas praias.
Faltam homens sem qualidades.
Já todos entendemos
que um tempo acabou. 
Acabou o seu tempo,
diz-me o psicanalista, lá nos anos 70,
a acordar num bocejo e a olhar para o relógio.

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