terça-feira, 12 de abril de 2016

Amélie est morte

Amélie e MJB (foto: «Facebook»)
A Maria João Bastos tem uma cadela... tem, não... tinha uma cadela, a Amélie. A cadela bateu a bota, e foi uma tragédia que vem em toda a imprensa séria.

No Jornal de Notícias dão os pormenores todos. A bicha «terá» adoecido no dia 1 de abril, na sequência da ida a um hospital,
(não sei se o PAN já conseguiu que o SNS não cobrasse taxas moderadoras nestes casos, ou se o PS já alargou a ADSE aos filhos de quatro patas, mas adiante)
para uma simples destartarização dos dentes. A fiel amiga de Maria João Bastos foi, dizem-nos Maria João Bastos e os seus milhares de seguidores no Facebook, mal tratada e, quando voltou a casa, o sofrimento era visível. Conta-nos Maria João Bastos:
«Deitei-me ao seu lado a dar muitas festinhas e beijinhos e a conversar com ela, dizendo que ia ficar tudo bem»,
mas não conseguiu aguentar e ligou para o hospital veterinário. E aí, meus amigos, aí vemos a força do Amor. O olhar de Maria João Bastos deslocou-se pelo éter e, conforme nos relata na primeira pessoa, viu o que não esperava ver:


Poirot pensaria que é muito suspeito que Maria João Bastos tenha conseguido ver o sorriso ao telefone e começaria, cínico, a enredá-la nas teias que as suas celulazinhas cinzentas tecem:
«Mademoiselle, aimez-vous les chats?»,
perguntaria. Maigret, acendendo o cachimbo, pediria dois finos e uma sandes de presunto, lançando-se num interrogatório, pela noite dentro, a Maria João Bastos
(mas, afinal, quem é Maria João Bastos?),
a quem trataria por «rapariga», até esclarecer as misteriosas circunstâncias da morte de Amélie.

As famigeradas «redes sociais» (a fonte utilizada pelo JN e pelos outros jornais para esta notícia tão relevante) já condenaram a veterinária e a clínica que, entretanto, respondeu:
«Confirmamos que o mesmo animal deu entrada mais de 12 horas após a alta, já em paragem cardiorrespiratória. Neste momento não nos é possível apurar a causa da morte, ou se esta terá tido ou não relação com o referido procedimento».
Eu acho que as dúvidas deles têm razão de ser. Maria João Bastos, que consegue ver sorrisos do outro lado da linha e que, tendo a idade madura que aparenta ter, diz:
«Fiquei sem chão, o meu mundo desabou, deixei de ver e de ouvir»,
não me parece de confiança. Nem, aliás, esta imprensa.




21 comentários:

  1. Muito bom. O relato da sra. Bastos é das coisas mais doentias que li ultimamente. Sr. Hamsun.

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    1. Verdadeiramente deplorável é que a imprensa leve a coisa a sério e que o povo logo organize um linchamento.

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  2. Gostaria de o congratular pelo que escreveu, mas sobretudo por tê-lo escrito tão bem, e com uma pena tão afiada. Todo este espectáculo é simplesmente deplorável, e relembra os linchamentos populares de uma qualquer turba medieval sedenta de sangue. A verdade é que ainda ninguém sabe o que se passou (e que só será esclarecido com a necrópsia do corpo), e até lá, qualquer juízo e condenação é mais do que prematuro. Alerto também para alguma contra-informação que anda a ser veiculada - nalguns casos por pura ignorância das boas práticas médicas, noutros por indiscutível malícia. Espero sinceramente que a justiça actue, e que seja célere. Obrigado por uma lufada de ar fresco, no meio da pocilga virtual em que este triste assunto rapidamente se tornou.

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    1. Obrigado, eu.
      Tomei, recentemente, a decisão de fechar a minha página do Facebook. O ciberespaço português (com extensões nas redes sociais, nos comentários em jornais online, na forma como a imprensa se abastardou e na própria intervenção de milhares de colunistas e comentadores sem juízo) transformou-se num mundo irrespirável e a «turba» já não consegue controlar-se.

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  3. Simplesmente ridículo e de quem não sabe o que é perder um membro da família. Tomara que não tenha de passar por isso sobretudo por circunstâncias que possam ser imputáveis a outrem, como parece ser o caso.

    Cumprimentos

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    1. Eu sei o que é perder membros da família e não os confundo com um cão. Mas até podia respeitar a dor, não fosse o caso de se tratar de um espetáculo público, um festival lamechas de uma atriz a precisar de notoriedade e afagos no ego. Dantes havia as "carpideiras" para fazer estes papéis.
      Mas o pior não é ela, mas sim quem, sem sequer saber o que se passou, só porque "parece", já crucificou a clínica e a veterinária, em termos inaceitáveis.
      Toda esta história me parece tão ridícula...

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    2. Embora entenda o exagero em que caiu esta "noticia", lamento dizer-lhe q os animais sao para mim um membro da família... Já perdi membros familiares humanos e animais e cabe a cada um julgar o que lhe dói... cmpts

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    3. Dou-lhe total razão, e até queria ter dito isso acima com mais ênfase. A minha questão tem a ver com dois aspetos: a forma imprópria como a pessoa em causa se expõe (e é sabido que estas coisas acabam por ter o seu retorno, positivo ou negativo); e a reação das massas (estimuladas, também, pela falta de decência da imprensa).

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    4. Ridículo é acreditarem piamente na verdade irrefutável do relato da actriz sem ouvirem o lado contrário, e assim arruinarem a vida pessoal e profissional da veterinária que, até ao momento, é presumível inocente. Lembra as bruxas de Salem, não interessa se há culpados, o que interessa é animar o povo com linchamentos na praça pública...

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    5. Até ver, a única pessoa nesta história que não é suspeita é a Amélie. Morte macaca, a da bicha. Mas temos que ver o lado luminoso: depois de uma vida a ser ridicularizada nas redes sociais, a morte foi uma libertação.

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    6. Cruz credo,Cão não lê coluna de FB, não precisa de tal libertação! e sim, cão para muita gente é mais do que família: apesar da sua mente pequena e simples, a sua sinceridade afecto são inquestionaveis, ao contrario de muita "familia". Mas neste caso o escandalo está no linchamento de vet e clinica sem quaisquer provas nem escrupulos quando vêm o seu País e todos os seus averes e direitos roubados todos os dias e fazem... NADA! isso sim é escandaloso... Já para não falar que por pior que seja o vet, é raro tratar um animal pior do que o nosso serviço de saúde trata as pessoas...

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  4. O texto está hilariante, inteligente e tudo mais... Claro que o espalhafato feito pela imprensa sensacionalista é o exagero que seria de esperar... Porém, vamos tentar não defender uma clínica que foi claramente negligente e digo isto tendo lido o texto da atriz mas também a resposta publica da clínica que nada negou, dizendo (basicamente) que ela pode ter adoecido por outra causa qualquer depois de lhe ter sido dado alta! Tratando a cadela como se uma filha fosse, não acredito mesmo nada que a Maria Joao Bastos a tenha deixado sozinha por um segundo depois de a ter ido buscar(pode ter sido intervenção do além que achava que era hora da cadelita ocupar o seu lugar no paraiso canino).
    Sempre tive animais e sei distinguir o que é um cão ou um humano, mas tambem sei o que doi perder um amigo de quatro patas. As clínicas veterinárias têm clientes que pagam(e não é pouco) para proporcionar o melhor serviço possível aos seus animais de estimação e quando algo errado acontece (pois errar é humano) que tenham o carácter e a humildade necessária para assumir esse erro ou no MÍNIMO proporcionar respostas ao dono que confiou nos seus serviços.
    Sei que se comigo se passasse uma história idêntica também ficaria pior que estragada!
    Uma coisa é criticar a imprensa, nesse assunto concordo a 100%, outra coisa é assumir que a atriz está à procura de protagonismo ou a exagerar quando ela está é claramente revoltada e só quer expressar a sua dor.

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    1. OK, vou tentar moderar-me, prometo. Mas que isto dava uma boa história policial, dava.

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  5. Vou dizer algo que me revolta nisto tudo, e vos asseguro de uma coisa: eu sou cliente deste hospital com 4 animais, e já fui atendido pela mesma veterinária umas quantas vezes. E sempre bem recebido e atendido com todo o profissionalismo.
    Ninguém deixa 1 animal em sofrimento em casa mais de 12 horas. Mesmo que fosse verdade os argumentos da dita Maria (que não são!), ela só tinha de pegar no animal e dirigir-se a 1 hospital, fosse o mesmo ou não.
    Agora uma coisa é certa, e é isto que creio que o autor quer dizer: a nossa sociedade gosta é deste tipo de merdas! Desculpem lá a franqueza!
    Ninguém sabe o que se passou ao certo, e mete-se tudo do lado da coitadinha da V.I.P. que decidiu deixar o bixo a sofrer 12 horas seguidas... Mas está tudo bem??? É muito giro ir para o FB e jornalecos de baixo profissionalismo argumentar e ser treinador de bancada num pais de baixa educação social! Gente sem valores que é herói por uns momentos atrás de 1 teclado!

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    1. É, a coisa também me revolta um pouco. Estamos a ficar umas bestas. (E com isto não quero insultar os chihuahuas nem os leitões, meninos ou meninas, de boas ou más famílias).

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  6. Artur, adorei o texto. Parabéns pela clareza de espírito, ironia e sarcasmo certeiros. Não sei se conhece a veterinária, mas eu sim e ela está a passar um mau bocado com isto tudo. Os amigos que se apresentaram em sua defesa, como é o meu caso, foram insultados e achincalhados também. Mas a diferença é que não vamos ter repercussões disto na nossa vida profissional. É extremamente revoltante isto que se está a passar mas acredito que irá ser feita justiça mais tarde ou mais cedo.

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  7. Nada mais a crescentar.
    http://www.flashvidas.pt/a_ferver/detalhe/maria_joao_bastos_causa_mau_ambiente.html

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  8. Boa noite eu como tenho vários animais custa-me ver minimizada a sua morte desta forma, independentemente de tudo o que possa estar por detrás desta história, de quem é a tutora, etc. Por essa razão, pela Amelie, não gostei do seu texto...cump

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    1. Obrigado por me dizer isso de uma maneira tão correta.

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  9. Queria lembrar que entre nós, adultos, já várias pessoas morreram por reações alérgicas aos procedimentos... Nós não controlamos a maneira como cada corpo reage a diferentes químicos. Já tive um cão que ia morrendo no decorrer de uma vacina que ele já havia tomado várias vezes... Só não morreu porque eu não esperei 12 horas... Assim que começaram os sintomas recorri logo ao veterinário que conseguiu anular os efeitos secundários. Não conheço a veterinária em questão nem a clínica mas acho que linchamentos em praça pública não só não diminuem a sua dor como servem para denegrir por vezes uma imagem profissional que demorou anos a construir. Se achar que tem razão entre com um processo em tribunal porque é lá que se discutem estes temas, não no facebook, sem que a outra parte tenha hipótese de se defender.

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