sábado, 20 de fevereiro de 2016

Moinhos de vento

Umberto Eco, o homem que sabia tudo, era um grande apreciador de Dom Quixote e da obra de Miguel de Cervantes. Em 1997 fizeram dele Doutor Honoris Causa da Universidade de Castilla-La Mancha. Na cerimónia, no castelo de Calatrava (Ciudad Real), no meio das paisagens que o engenhoso fidalgo percorreu, Eco falou da biblioteca de Dom Quixote, «cheia de romances de aventuras, de onde se sai para aventurar-se na vida», contrapondo-a à de Jorge Luís Borges, «da qual não se sai e onde a busca da palavra verdadeira é infinita».
Em 2009, Eco voltou a falar do fidalgo manchego, para o jornal La Stampa, que intitulou a entrevista L'hacker salvato da Don Chisciotte (O hacker salvo por Dom Quixote), por causa desta resposta:
Pensa che l’e-book possa produrre nuovi (o giovani) lettori?
«Mi hanno raccontato di un hacker del Mit che da quando ha avuto tra le mani un e-book ha cominciato a leggere romanzi, iniziando col Don Chisciotte. Come vede le vie del Signore sono infinite»
. (Contaram-me a história de um hacker do MIT que, desde que teve um e-book nas mãos, começou a ler romances, começando pelo Dom Quixote. Como vê, os caminhos do Senhor são infinitos).
Um intelectual barbudo, um homem que sabe tudo, bibliotecas, lutas contra moinhos de vento: isto lembra-me alguém. Neste dia, em que se lamenta a morte do romancista-ensaísta italiano, por coincidência, José Pacheco Pereira escreve no Público mais um artigo inflamado («Tudo está armadilhado»), onde ataca os seus moinhos de vento favoritos (neste caso, podemos chamar-lhes Windmühle: «o que se está a passar em Portugal, sendo na verdade apenas uma tímida mudança,  é tratado quase como uma revolução e, como tal, mobiliza as gigantescas forças que estão preparadas para matar no ovo qualquer desvio menor que seja ao cânone alemão»).

Mas não vou esnobar (*) de Pacheco Pereira. Afinal, ele montou na Marmeleira uma biblioteca com 5 quilómetros onde tem uma primeira edição da obra de Cervantes (é verdade, li no Correio da Manhã!).

Pergunto-me como classificaria Umberto Eco tal biblioteca.
 


(*) Esnobar é uma palavra usada pelos brasileiros e, frequentemente, por Pacheco Pereira, como é o caso neste artigo. Que palavras usaria se não fosse um feroz adversário do Acordo Ortográfico de 1990, essa submissão lamentável ao Brasil?




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