domingo, 1 de novembro de 2015

Women from Down Under 2: nas nuvens

    O voo Frankfurt-Singapura, da Lufthansa, tinha muitos lugares vagos, e no balcão do check-in, ainda no Porto, sentaram-me numa fila de três bancos que estavam vazios. Fiz as duas primeiras horas sozinho e satisfeito, jantei nas nuvens, esparramado em tanto espaço. Mas então chegou Allyson.
    Allyson era curiosa, faladora, loira e grande, as quatro coisas muito. Grande no sentido em que ocupa muito espaço, faladora no sentido em que não se calava, loira no sentido em que se é loira e curiosa no sentido em que queria saber tudo e em tudo se metia.
    Tinha vindo, até ali, ao lado de dois russos que falavam mais do que ela, mas em russo e entre eles, e sentiu-se incomodada.
    «I'm sorry, but I couldn't stand it anymore, they wouldn't stop drinking and laughing...». O ar consternado era como o da Bambi, é impossível não ter pena. 
    Allyson é professora universitária (sociologia), nascida na Croácia, perto de Split, onde viveu até aos três anos, quando os pais emigraram para a Austrália. Desde aí - já tem cinquenta e um - vive em Sidney, que adora. Pelos vistos, mora na mesma zona em que muitas celebridades têm casa.
    «Of course, I live in the not-so-expensive half of Hunters Hill...» acrescentou, com um sorriso maroto.
    Uma dessas celebridades é a atriz Cate Blanchett, que agora «is moving to the United States, so they're trying to sell their house. More than 20 million dollars, can you believe it? But she and her husband already said that they'll return to Australia. I love them both very much, they're so clever and so simple!»
    Adorou também saber que eu conhecia a Croácia e prometeu visitar Portugal, que me fez descrever quase em pormenor. Contei-lhe, para me vingar, as atrozes histórias da guerra que dizimou as terras da ex-Jugoslávia, há bem poucos anos, e que ela não conhecia bem. Naturalmente, armei um pouco e sugeri que eram histórias que me foram contadas pelos que as viveram em primeira mão. Obrigado, Joe Kubert. E, sim, algumas dessas histórias ouvi-as mesmo de quem as viveu.
    Allyson vinha de uma viagem de um mês à Europa central, incluindo a sua terra natal, com um saltinho a Espanha, onde esteve com uns amigos australianos - Tom e o seu, let's say, husband, que têm um restaurante na Costa del Sol e são uns amores de pessoas, principalmente Tom, que já tem setenta anos; Pablo, que é chef e mais novo, é uma pessoa mais reservada.
    Mais uma pausa, entre muitas, para ir dar um passeio pelo corredor.
    «He's been sleeping for seven hours! It's very dangerous, you know, people should take frequent walks while in planes!»
    Dizia-o referindo-se ao passageiro do banco atrás de nós que, após o jantar, se tinha estendido e ressonava, aliás de uma forma muito musical, desde então. Allyson é assim, salta de assunto em assunto, inconstante e etérea.
    «Maybe he took some kind of pill», sugeri.
    «Yeah, maybe...».
    O marido, também professor, tinha ido com ela, mas da Alemanha seguiu para o Japão, onde tem uma conferência. Mas Allyson já não queria estar mais tempo sem ir a casa, à sua querida Sidney.
    «Every time I return home, the moment I see the Bay, you know -- it's such a joy!».
    Quando aterrámos em Singapura meteu conversa com o chinês do banco de trás.
    «So, are you feeling allright? You know, you shouldn´t do that, sleep all the time. You should stretch your legs once in a while...» Ele olhava para ela, estremunhado.
    Allyson, ingrata, despediu-se de mim a correr, ainda dentro do avião, e precipitou-se para a zona de acesso ao piso superior, onde eu lhe tinha dito que iria a também atriz Angelina Jolie. Não sei se é verdade, vendi-lho como mo venderam a mim, ainda na zona de embarque em Frankfurt.



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