sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Tanto espaço



1. No dia do seu quadragésimo quinto aniversário, Alberto decidiu emigrar para o Canadá. Desejava-o desde que, num enorme mapa-mundo pendurado na parede do escritório do seu pai, tinha descoberto que ali havia uma província chamada Alberta.

2. O mundo, nesse mapa, sempre lhe tinha parecido grande; mas, ao longo da sua vida profissional numa multinacional do setor agroalimentar, tinha compreendido que, afinal, era muito pequeno. Exceto Alberta. No seu imaginário, Alberta continuava um território imenso, mais vasto do que as florestas da América do Sul ou as planícies da Ásia Central, e com montanhas mais altas do que os Himalaias.

3. Estava com os amigos, a festejar, quando viu claramente, no fundo do sétimo copo de uísque, o absurdo que era a sua vida. Avaliava campos de milho e soja destinados a alimentar os gordos e as vacas, empregando trabalhadores cujas famílias morriam de fome. Selecionava colheitas de arroz para as novas linhas de flocos dietéticos, e via os sacos a ser embalados por mulheres famintas e por crianças esqueléticas.

4. O arroz tailandês ou a soja brasileira, aqueles homens, mulheres e crianças, estavam tão próximos uns dos outros! Entre eles, apenas existiam as viagens de avião, atravessando continentes e mares inexistentes, como parênteses desconfortáveis.

5. Quis abandonar tudo isso, oprimido por uma sensação de falta de espaço.

6. Mudou-se para Alberta e é feliz. Em Peoria, no Condado de Birch Hills, vive rodeado de campos de colza e trigo, onde os seus conhecimentos técnicos são úteis e reconhecidos pela meia dúzia de colegas e de vizinhos. O seu olhar perde-se, durante longas horas, no horizonte longínquo, para lá das plantações e dos prados, onde vacas e bisontes pastam em grandes manadas; para lá, mesmo, da grande barreira das Rockies.

7. Tanto espaço…


Canola Fields in Alberta. Fonte: www.etsy.com/shop/DeepLightPhotography


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