sábado, 7 de novembro de 2015

SPAC

(...) Em Portugal, a amizade entre pessoas de sexos opostos (ou sexualidades opostas) é sempre muito problemática, dada a chamada «cultura vigente». A cultura vigente é dominada pelo conhecido Factor SPAC, que influencia todas as relações entre homens e mulheres. O factor SPAC (que significa, em repreensível português, Salto Para A Cueca) está sempre presente.
É a mulher que repara que o seu grande amigo está disposto a discutir todos os problemas dela com a maior paciência e compreensão, mas que começa a arroxar e a esverdear, a puxar o lustro à cadeira com o rabo, sempre que ela lhe revela estar muito feliz com um novo amor. Ou (pior ainda) com um velho. Se o amigalhaço suporta a miséria mais camiliana com um sorriso, mas não aguenta a mínima menção de alegria, se ajuda muito nos dissabores e desamores mas empata ainda mais nos sabores e amores, levanta-se no espírito da mulher, legitimamente ou não, o factor SPAC. E ela interroga-se: «Se calhar este também me quer Saltar Para A Cueca?» E se calhar quer. (...) O homem português tende a distinguir mais claramente entre Amigos e Amigas. Os Amigos são para copos e conversas escandalosas de bola e de «boas».
Isto escrevia Miguel Esteves Cardoso numa das suas mais famosas crónicas do Expresso, depois retomada no livro «Os meus problemas», editado em 1988 - o ano em que MEC abandonou a espessa Instituição da imprensa portuguesa e ajudou a fundar o semanário O Independente.

A propósito da fresquíssima edição de um livro de dois antigos jornalistas d' O Independente (A máquina de triturar políticos, de Liliana Valente e Filipe Santos Costa, ed. matéria-prima, 2015), que nos conta muitas histórias dessa época e desse jornal, com protagonistas que ainda andam por aí, fui reler alguns trechos de MEC, e logo dei de caras com este pedaço de filosofia de esplanada, que suscita grande perplexidade.

Efetivamente, neste mundo atual de liberalidade extrema (que, no futuro próximo, tenderá a institucionalizar-se, com a esquerda radical e chique no poder), qual o lugar para uma expressão como «sexos opostos» (ou «sexualidades opostas»)? Tendo em conta a nova «cultura vigente», e como muito bem se comenta em certos meios mais conservadores (incluindo os do Partido Comunista), quando deixar de existir uma norma, o que será das saídas entre Amigos para copos e conversas escandalosas de bola e de «boas»? Que ambiente reinará no balneário da futebolada das terças-feiras? Poderá o grupo de sempre passar uma tarde na praia e partilhar meia dúzia de cornettos sem que o Factor SPAC se interponha, como uma nuvem negra, sobre a descomprometida Amizade - ou, simplesmente, convívio?

Hmmmm... será que este também me quer SPAC?

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