sábado, 31 de outubro de 2015

Women from Down Under 1: um incidente em Díli

    Está uma tarde de sábado sufocante em Díli. As raras brisas que sopram do mar não atenuam o calor húmido que cobre a cidade e, na rua, o suor escorre-nos pelas costas a cada passo que damos. A contragosto, circulamos no jipe com as janelas fechadas e o ar condicionado ligado, após uma tentativa falhada de visitar o Arquivo & Museu da Resistência Timorense, pois o feriado de 2 de novembro fecha o país para um fim-de-semana prolongado. 
    Num cruzamento, notamos um aglomerado de pessoas rodeando uma motorizada caída e bastante danificada, e vemos que uma senhora de cabelo branco e pele clara procura fazer-se entender no meio de homens e crianças, gesticulando. Parece-nos calma e firme, denotando experiência em lidar com situações de stresse. O meu amigo comenta:
    Vai ser complicado para ela, porque aqui a lógica é “a culpa é sempre do malai (estrangeiro) ”.
    Saímos do carro para ajudar e perguntamos o que se passou – um simples choque entre carro e motorizada, o rapaz está bem, explicam-nos alguns dos presentes. Efetivamente, está sentado no passeio, numa posição mais de voyeur do que de vítima.
    A senhora, que conduzia um Toyota de modelo antigo e já bastante degradado, chama-se Jenny e é cooperante australiana. Garante-nos que nem viu a motorizada, apenas sentiu uma pancada do lado esquerdo (em Timor, a condução faz-se pela esquerda e os carros têm o volante à direita). Parou o carro junto ao passeio, um pouco à frente, e tem estado a tentar explicar aos locais que não teve qualquer responsabilidade, o que é uma tarefa árdua, pois neste grupo de duas dezenas de pessoas nem todos falam a mesma língua. Mas entre tétum, português e inglês, acabamos por entender que o rapaz da motorizada e os seus amigos não querem chamar a polícia, e que uma ajuda monetária para ajudar a reparação será suficiente.
    Jenny indigna-se.
    I´m not going to give them any money! I´ve got no money, I’m a volunteer!
    Continua a tentar explicar-lhes que não teve culpa e que o melhor é chamar a polícia. Entretanto, a pequena multidão vai dispersando e toda a gente aparenta uma calma estranha perante a situação. A quietude é apenas interrompida pela algazarra de algumas crianças e pelo diálogo, um pouco de surdos, entre Jenny e os amigos do acidentado, que entretanto vai levantando a motorizada para avaliar os estragos.
    Outro carro, com cooperantes da ONU, para junto ao cruzamento. Também são da opinião de que se deve chamar a polícia, mas o rapaz da motorizada continua a insistir que não, e acaba por ligar o motor e afastar-se, numa trajetória vacilante. Finalmente, alguém explica que ele não tem licença de condução e prefere evitar problemas.
    Vou com Jenny até junto do seu Toyota, e nota-se bem a violência do embate: o para-choques e a porta estão bastante amassados e a reparação vai ser cara. Jenny, que ainda não tinha visto os estragos, fica consternada. Quando se despede, ainda fala, ríspida, para um dos locais:
    He wants money? I’m the one who should be asking for money!
    Tenho a certeza que, se fosse latina, lhes mostrava o dedo do meio ao arrancar.

    Como o calor continua a apertar, concordamos que uma Bintang vai cair bem. A caminho do hotel cruzamo-nos com o veículo da polícia, que acorre à emergência.



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