quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Mistura de sol e de bosta


Gostaria V. de saber se tenho a intenção de voltar um dia à nossa língua, ou se penso permanecer fiel a esta outra na qual entretanto me supõe de maneira algo gratuita uma facilidade que não tenho, que nunca terei. Seria iniciar a narração de um pesadelo contar-lhe com alguma minúcia a história das minhas relações com este idioma de empréstimo, com todas estas palavras pensadas e repensadas, vergadas pelas exações do matiz, inexpressivas por tudo terem expresso, aterradoras de precisão, carregadas de fadiga e de pudor, discretas na própria vulgaridade. Como quer que se lhes acomode um cita, que um cita lhes apreenda o sentido nítido e as maneje com escrúpulo e probidade? Não existe uma só cuja elegância extenuada não me dê vertigens: nelas, não há nem rasto de terra, de sangue, de alma. Cinge-as uma sintaxe de uma rigidez, de uma dignidade cadavérica, que lhes atribui um lugar de onde nem mesmo Deus seria capaz de as desalojar. Que consumo de café, de cigarros e de dicionários para escrever uma frase menos incorreta nesta língua inabordável, demasiado nobre, e com demasiada distinção para o meu gosto! Infelizmente só ao olhar para trás me dei conta da sua maneira de ser, quando se fizera já tarde para me afastar dela; sem o que nunca teria abandonado a nossa, da qual por vezes choro o cheiro a fresco e a podre, a mistura de sol e de bosta, a fealdade nostálgica, o soberbo desalinho.
Isto está quase no início do livro História e Utopia (Histoire et Utopie, 1960*) de E. M. Cioran, um escritor e filósofo que nasceu na Roménia (1911) e se radicou em França, a partir de 1937 (morreria em Paris, em 1995).
Estava distraído a folheá-lo, enquanto esperava pelo metro, quando bati nesta pitoresca, mas tão exata, descrição das minhas angústias quando tenho que escrever algum relatório numa língua estrangeira, o que me acontece com alguma frequência.
São, apesar de tudo, angústias ligeiras, se pensarmos em todos os jovens portugueses que emigraram, não para exercer profissões manuais, mas sim aquelas em que o uso da palavra escrita é fundamental; ou até nos profissionais da tradução, cuja missão (sei-o agora!) não é dar-nos as palavras exatas que nos permitem compreender um original, mas sim dar-nos aquela mistura de sol e de bosta que nos faz assimilar um mundo alheio.

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(*) Neste caso, a edição é da Bertrand, de 1994, traduzida por Miguel Serras Pereira.

7 comentários:

  1. O dogmatismo provocatório de E. M. Cioran é, quase sempre, estimulante. Mas creio que este texto, como muitos dele, peca por excesso, embora eu não duvide das perplexidades e "torturas" por que passou, para escrever (bem) francês. Mas o facto de um estrangeiro escrever noutra língua, sobretudo com probidade e escrúpulo, pode também ser uma mais valia: ninguém, até hoje, põe, ou pôs, em causa a qualidade e o estilo dos escritos de Cioran, em francês; como, ainda hoje, é elogiado o estilo literário de Joseph Conrad, em inglês, por exemplo.

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    1. Não sou iniciado neste intelectual, e tenho que confessar que é o primeiro livro dele que leio. E foi mesmo por acaso, estava por uma estante lá no escritório e eu trouxe para dar uma vista de olhos. Até ver, parece-me uma espécie de Miguel Esteves Cardoso um bocado mais lúgrube.
      (Acho que me enterrei um bocado neste comentário, não?)

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    2. Lúgubre. Raio de teclado do telwmóvel...

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    3. Metaforizemos, via BD: há, na verdade, uma certa diferença, de tomo e peso, entre o nacional-porreirismo do Dumbo e a magia, também aérea, da Fada Sininho mesmo que numa pose pessimista (à Schopenhauer...).
      A frugalidade mística e romena de Cioran tem pouco ver com a gargantoíce de superfície do nosso luso-bife. Pelo menos no peso e na profundidade de saber reflectir ou ir além da espuma das coisas ou da flor-do-sal.
      Desejo-lhe um bom fim-de-semana!

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    4. Eu sabia, enterrei-me... Mas, se conhece este livro, há de concordar que as páginas sobre os húngaros são estereótipos tão profundos como as do MEC sobre os espanhois...

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    5. A tentação de generalizar sempre foi um pecadilho humano, e Cioran não foge à regra. Por outro lado, se os holandeses são os alentejanos dos belgas, também a Hungria costuma ser o bombo da festa romena.
      Não tenho especiais recordações desta obra de Cioran, prefiro-lhe o "Précis de Décomposition" e "La Tentation d'Exister". Ou os "Cahiers" que, apesar de mais fragmentário que o habitual, ando a reler com gosto.

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