sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Histórias pornográficas 2

Nota prévia: a linguagem continua imprópria.


Um homem, o barbeiro
Há uns meses, mudei de barbeiro, pois o senhor P., antigo emigrante no Congo (Brazzaville), com quem troquei inúmeras conversas acerca de África, reformou-se. Passou o negócio a um jovem brasileiro, chamado T., residente em Ermesinde, que me pareceu nervosamente politizado. Se um dia tiver que fazer a barba, conseguirei confiar o pescoço a umas mãos que apoiam Dilma, para mais segurando uma navalha? – perguntei-me. Como a resposta foi negativa, procurei outro barbeiro, não muito longe.
Deste, onde já fui duas vezes, muito haveria para dizer, mas comecemos pelo princípio. Já estava escuro, lá fora, quando entrei na sala, timidamente, como sempre entro em lugares desconhecidos, e interrompi a conversa entre o barbeiro e o seu único cliente, ambos de idade já acima dos sessenta:
– Posso?
– Entre, entre, sente-se na cadeira que é o próximo! – respondeu o homem de bata branca, enquanto o seu companheiro assentia e dizia:
– Eu até já estou de saída! Até amanhã, C.! E não se esqueça do que lhe disse!
Ficámos sozinhos, e logo o senhor C. começou os preparos habituais.
– Então, como vai ser, um corte clássico?
– Esteja à vontade. Com o meu pouco cabelo não há grande variação. Costuma ser mais curto no verão, mais comprido no inverno...
– E esta barba, é para ficar ou também desbastamos? Está um bocado grande – disse-me, enquanto passava um pente pela minha cara.
– É isso, está grande, branca e desgrenhada. Mas deixe estar, que isso eu depois trato em casarespondi-lhe.
A partir daqui, a conversa entrou numa vertigem libidinosa.
– Ah! Sim, está quase toda branca... Sabe, isso lembrou-me agora uma história que se passou comigo, aqui há meia dúzia de anos. Encontrei, por acaso, uma antiga namorada, chamada A., que não via desde os meus trinta anos, veja lá! Foi ali junto ao Mercado, ela vinha no passeio, ficou a olhar para mim, eu para ela, e veio-me à memória... «És a A., não és?», e ela também me reconheceu logo.
Nesta altura, o senhor C. tesourava afincadamente as minhas suíças, sem parar de falar.
– Fomos tomar um café e contou-me a vida toda, que se tinha casado e separado, que tinha emigrado para o Luxemburgo, que tinha três filhos. E eu, ali, a olhar para ela e a pensar que já tinha quase cinquenta anos mas ainda estava tão boa...
Com a cabeça controlada pelas mãos, pelo pente e pela tesoura, eu continuava sem saber o que tinha a minha barba a ver com a história.
– Acabámos o café e, palavra puxa palavra, fomos dar uma foda. Foi uma maravilha, quando tirou a roupa e lhe vi os pelos da pachacha: todos branquinhos, tão macios...
O senhor C. calou-se, e, durante alguns segundos, apenas se ouviu o clic-clic-clic da tesoura.
– Nunca mais a vi, acredita? Voltou para o Luxemburgo e nem sei se cá tem vindo. Mas nunca me vou esquecer daquela pentelheira que parecia algodão...

Levou-me oito euros pelo corte, e nem achei caro.

 

7 comentários:

  1. Segunda via:
    São as vantagens da província: eu pago 11 euros e nunca me contam dessas histórias...

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  2. Obrigado pela repetição. Quando li a primeira vez nem acreditei que se estava a referir a Matosinhos como "província"!
    Posso dizer que conheço lá (muitos) sítios onde se pagam vinte e mais euros por um corte de cabelo, e também não contam histórias. Vê, que sorte tem em cortar o cabelo na capital provinciana, onde é tudo tão barato?
    Ora não querem lá ver?!

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    Respostas
    1. Trazemos connosco - porque eu também dela vim - a província, como um ferrete de nascença, para sempre, pois como os malandros dos "Mouros" dizem: o resto é paisagem...
      Bom fim-de-semana!

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  3. Respostas
    1. Aconteceu mesmo assim. É de arrepiar o cabelo.

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