segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A história da moral, de Alexandre O'Neill

A história da moral

Você tem-me cavalgado
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.



--- xxx ---

Este poeta tinha um nome surrealista: Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill de Bulhões. Nasceu em 1924 e morreu em 1986, e dele todos conhecemos pelo menos o «há mar e mar...». A história da moral é um poema retirado da obra «De ombro na ombreira», de 1969. É bom para ler no day after, não é, Dona Eunice?

3 comentários:

  1. Eu não sei se essa dona era aquela diva do Teatro que, de uma vez, fez um voo supersónico do PC, para aterrar no PSD do Cavaco e do Santana (ao tempo, na Cultura)... Quanto ao O'Neill, esse endiabrado poeta com umas pingas de sangue irlandês, prefiro-lhe, para o caso concreto, o inultrapassável "Portugal":

    O Portugal, se fosses só três sílabas,
    linda vista para o mar,
    Minho verde, Algarve de cal,
    jerico rapando o espinhaço da terra,
    surdo e miudinho,
    moinho a braços com um vento
    testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
    se fosses só o sal, o sol, o sul,
    o ladino pardal,
    o manso boi coloquial,
    a rechinante sardinha,
    a desancada varina,
    o plumitivo ladrilhando de lindos adjectivos,
    a muda queixa amendoada
    duns olhos pestanítidos,
    se fosses só a cega-rega do estio, dos estilos,
    o ferrugento cão asmático das praias,
    o grilo engaiolado, a grila no lábio,
    o calendário na parede, o emblema na lapela,
    ó Portugal, se fosses só três sílabas
    de plástico, que era mais barato!


    (Desculpe a ocupação de espaço, mas que seja por mor do O'Neill...
    E uma boa noite!)

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