quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Tudo é mentira neste mundo


Numa crónica no Ípsilon/Público (A mentira como vocação, 25.09.2015), António Guerreiro resume bem as coisas:
Entre nós, deu-se nos últimos tempos um fenómeno discursivo de alguma importância: acusar um político de ser mentiroso deixou de ser uma prerrogativa da linguagem da “rua” e entrou sem cerimónias nas disposições do debate político. Tornou-se um argumento usado nas instâncias que, até há pouco, nunca tinham descido abaixo das “inverdades”, na escala das virtudes políticas. (...)
A mentira em política já não é a “inverdade” que estava a meio caminho entre as ilusões da ideologia e as mentiras factuais. E, por isso, começou a tornar-se matéria para uma acusação deste tipo: “O senhor, que é meu par, é mentiroso.”
Fica, então, estabelecido, por confissão dos próprios e não apenas pelo julgamento popular ou pelos factos, que os políticos são mentirosos. Portanto, o que estará mesmo em causa, nas eleições do próximo domingo ou nas que se lhe vão seguir, etc., é se a ex-secretária de estado diz a verdade quando nega que mandou alterar uns números? Se o candidato socialista vai mesmo repor as pensões? Se os doutos economistas, desta vez sem exemplo, falsificaram os seus excéis?

Claro que não é isso, já sabemos que é tudo mentira, e que cada um nos contará a sua verdade. O que está em causa é a escolha de um destino e de um caminho, e devemos escolher julgando a determinação com que cada um nos parece querer trilhá-lo.

Isto não resolve a minha indecisão. Se não contarmos os pequenos movimentos criados em torno de algumas vedetas, cheios de gente de boa vontade, mas que me parecem bastante mal preparados para assumir responsabilidades cívicas e políticas (acho-os, aliás, bastante levianos, desde o Livre até ao PNR), só há duas opções: o PCP, com a sua linha clara sobre como ir (embora não fique claro o "para onde"); e a coligação PàF, que parece saber para onde vai (embora hesite mais do que devia nas encruzilhadas).

O resto é a gelatina dos dias, com liderança de gente que não sabe como ir para a parte incerta para onde nos quer levar. Sabem apenas mentir.


Sem comentários:

Enviar um comentário

Esteja à vontade para comentar. E escreva na língua que lhe apetecer, mas escreva bem!