domingo, 20 de setembro de 2015

Empreender, mas a sério

Respondendo ao convite do meu amigo António Montalvão Machado, da ADRAT, estive na passada sexta-feira, em Chaves, a «moderar» os trabalhos sobre desenvolvimento rural que integravam o programa do evento Alto Tâmega Empreende. Foi um dia cheio de otimismo, no qual gente de todas as idades e de todas as origens nos mostraram que estas Terras Altas do Norte não se rendem. Há força no interior, que não vem apenas de dentro de cada um, mas também, e da cada vez mais, do trabalho e do empreendimento em conjunto.

Do empreendimento, digo bem, e não dessa coisa formatada em Lisboa pelos burocratas dos fundos comunitários europeus, a que chamam «empreendedorismo», que não parece mais do que um discurso para justificar o gasto de dinheiros públicos com estruturas gestoras, funcionários e consultores - a quem custa compreender que um empresário que quer produzir ou exportar  produtos tradicionais ou inovadores a partir do mundo rural não pode ser submetido às mesmas regras dos grupos económicos ou das empresas que transbordam de CEOs geniais.


Registo o contraste entre os exemplos que tive a felicidade de conhecer e a mesquinhez de Pacheco Pereira, que confunde a realidade com o que vê no conforto do seu círculo de gente «bem». Este paradigmático representante da «elite» portuguesa, que está convencido que a sociedade e as «redes sociais» são a mesma coisa, escreveu ontem um artigo no Público em que diz que as próximas eleições serão decididas pelos abstencionistas zangados - num apelo patético ao PS para que lhes dirija uma promessas que os leve a derrotar «a coligação».

Será, mas estes furiosos, que a Pacheco Pereira parecem ser quase todos os portugueses, a mim parecem apenas aqueles que estão zangados porque os outros não trabalham nem arriscam o suficiente para lhe garantir o salário, a pensão ou a renda que recebem do Estado ou seus apêndices.

Envergonho-me duplamente. Quando vejo a luta de um produtor de fumeiro, de azeite ou de goji, ou do promotor de um novo serviço destinado a tornar melhor a vida dos idosos, e comparo a sua força com a abulia corrupta que atingiu todo o sistema de governação e serviços parasitas, do qual faço parte. E quando vejo a complacência com que os portugueses - incluindo os responsáveis políticos do mesmo «interior» - aceitam que os Pachecos Pereiras perpetuem o espírito de Tancredi di Falconeri: é preciso que tudo mude, para que tudo continue como está.

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