sexta-feira, 24 de julho de 2015

Lições

O capitalismo sempre foi capitalismo de Estado. Deleuze e Guattari já o tinham dito em 1972, no Anti-Édipo, mas agora percebemos perfeitamente que o capitalismo nunca foi liberal. A crise grega mostrou-nos claramente até que ponto se deu a integração e a subordinação do Estado à lógica financeira: o Estado age por conta dos credores e das suas instituições supranacionais.
(António Guerreiro: A lição grega. Ípsilon, 24 de julho de 2015)
Uma excelente crónica de AG, que pretende recapitular «as principais lições que até os mais distraídos tiveram obrigação de aprender com a crise grega». Excelente, mesmo tendo em conta que há por ali algumas considerações distorcidas e que, em certos casos, não fica muito claro o que o autor quer que se aprenda, como no parágrafo citado acima.


Pode ser uma lição apenas teórica, especulativa, que se refere a um qualquer «Estado» que não aja por conta desse credor - também conhecido por «Utopia». Para mim, mesmo sendo um distraído, a lição é esta: um Estado como aquele que os portugueses (e os outros europeus, mesmo os gregos) vão continuar a escolher, eleição após eleição, não tem alternativa. Chamem-lhe viver acima das suas possibilidades ou não.

2 comentários:

  1. Não irei comentar o texto de A. Guerreiro, de hoje.
    Mas eu creio que se abusa, nem sempre por bons motivos, do chavão "viver acima das suas posses", no sentido de culpabilizar os cidadãos anónimos que, vindo de gerações com fome de séculos (portugueses), aproveitaram, com gula e ingenuidade, as ofertas mirificas e criminosas de Bancos com crédito fácil, para fartar essa "fome".
    E facilmente esquecemos (ou perdoamos?), com benevolência, o viver acima das suas possibilidades dos Granadeiros, dos Ricardos Salgados, dos Bavas, dos Oliveiras e Costas, dos Rendeiros, que delapidaram e gastaram, à tripa forra, uma boa fatia da riqueza nacional.
    No seu conjunto, terão sido muito mais perniciosos para a economia portuguesa do que o Zé-da-Esquina, ou o costureiro da sra. Cavaca, que até foi comendado pelo seu trabalho de corte e costura...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Repare que eu não falo disso. Esses casos referem-se à vida de cada um, e cada um que se entenda com os credores. Empresas e cidadãos. Não me sinto nada solidário com os clientes do Sr. Salgado e sou contra uma intervenção pública para lhes resolver os problemas. Têm os tribunais e as matracas para tratar do assunto.
      O que ninguém pode dizer é que o coletivo não vive acima das suas possibilidades - como, aliás, já o Dr. Soares dizia em 1977 (recordei-o aqui: http://olinguado.blogspot.pt/2014/11/a-vida-dos-austeros.html). Isto não é uma teoria neoliberal.
      Quando o Estado se endivida é, no melhor dos casos, para prestar serviços públicos, a todos. E, portanto, todos os que usam as escolas gratuitas, os hospitais gratuitos, as estradas e as TV gratuitas, são beneficiários e corresponsáveis. Mas, como o modelo que preferimos (dizem-nos as eleições sucessivas e também os politólogos-comentadores) é o do Estado Social que vive de dívida pública, acabamos também por ser corresponsáveis pelo pior dos casos - o Estado corrupto, agindo por conta dos parasitas criminosos.
      E estes nem sempre são os credores.

      Eliminar

Esteja à vontade para comentar. E escreva na língua que lhe apetecer, mas escreva bem!