quinta-feira, 16 de julho de 2015

Gordura localizada

O agora chamado Acordo do Porto ou as faustosas inaugurações de dois espaços museológicos em Lisboa vêm confirmar que, quando Deus quer e os homens se mexem, o dinheiro para as obras sempre aparece.

Quanto a mim, isto é uma demonstração de que Estado Português não é "gordo", apenas padece de um problema de gordura localizada. Admito que os quinhentos e cinquenta mil funcionários públicos são em número proporcionado, por comparação com as famosas médias da OCDE ou da UE. Mas a gordura localizada que Portugal tem, concretamente na barriga, é uma maleita muito grave. Porque uma pessoa vai a Miranda do Douro, a Curral de Moinas ou a Almeida e mal vê o Estado: é só pele e osso. Em contrapartida, o cinto, ali pelo Tejo abaixo, marca bem onde estão as pendurezas (sessenta por cento daqueles funcionários e os outros dois milhões de dependentes, como os artistas que se manifestam e os trabalhadores e famílias dos trabalhadores das empresas prestadoras de serviços exclusivamente ao Estado, das empresas públicas, ex-empresas públicas e atuais PPP, etc.)

As duas imagens seguintes são decalcadas uma da outra.


Como toda a gente que lê revistas como a Vida Ativa, a Nova Cosmopolitan ou a Fitness World sabe, ao contrário de outros tipos de gordura localizada (nos braços, nas coxas, etc.), a que ataca o perímetro abdominal tem efeitos muito alargados a todo o organismo. Causa, por exemplo, graves problemas de coluna vertebral, obrigando os que dela padecem a vergar a espinha frequentemente, o que pode ser confundido com servilismo, em troca de mais uns cêntimos para comer uma salsicha.

Ensinam-nos essas revistas que a gordura localizada não se trata com dietas - que acabam por ter efeitos contrários, com o famoso efeito ioiô, engordando mais assim que se alivia a abstinência - mas com tratamentos de choque: muita ginástica, reequilibrando o organismo e distribuindo a gordura e o músculo de forma proporcionada, e, em casos extremos, com uma lipoaspiração, destinada a retirar o excesso de matéria gorda.

Ora o que os últimos anos de governação em Portugal nos mostraram foi uma política de dieta rigorosa, da qual agora estamos a ver o refluxo: volta-se aos snacks (museus em Lisboa, festinhas para os artistas em Lisboa ou Acordos do Porto - que dão votos para governar em Lisboa) e o abdómen engorda ainda mais, enquanto as partes escanzeladas estão de cada vez mais exauridas. E a barriga reclama mais e mais comida de alto valor calórico.

Isto é o que eu recordarei do governo de Passos, da austeridade e da luta dos meus amigos, e dos que o não são, para defender este Estado Social.


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