quarta-feira, 1 de julho de 2015

140

Fotografia © Paulo Spranger / Global Imagens
Em duas crónicas relativamente recentes, no jornal Público, José Pacheco Pereira falou sobre as palavras e a língua portuguesa, que são assuntos que ele consegue sempre relacionar com duas das maiores calamidades dos nossos tempo - o governo de Passos Coelho e o Acordo Ortográfico de 1990.
Entre várias ideias, algumas justas, outras iníquas, JPP insurge-se contra a pobreza da linguagem (especialmente escrita) que hoje impera na nossa sociedade e na nossa imprensa. Parece-me bem real, esta desertificação do vocabulário (e das ideias), mas noto ali uma especial obsessão com as novas formas de comunicação - o sms, o Twitter - que hoje são usadas por largas camadas da população.
É em Portugal que formas guturais de escrita, nos SMS e nos 140 caracteres do Twitter, enviados às centenas todos os dias por tudo que é adolescente, ou seja também por muitos adultos, se associa à capacidade de escrever um texto, seja uma mera reclamação a uma descrição de viagem.
(Os apátridas da língua que nos governam, 16/05/2015)
O incremento de formas de expressão quase guturais como os sms e o Twitter apenas dá expressão a um problema mais de fundo que é a desertificação do vocabulário, fruto de pouca leitura, e de um universo mediático muito pobre e estereotipado.
(Demasiado lampeiros para serem sérios, 20/06/2015)
Estas referências não me convencem, por várias razões.

As formas "guturais" sempre existiram, e nunca foram elas que limitaram a Literatura, a comunicação ou a simples crónica. O importante é que não sejam exclusivas, e que haja quem pratique outras formas de escrita. E que esses sejam lidos. O problema é que o espaço mediático está, mais do que nunca, pejado de colunistas e jornalistas, que enchem páginas e páginas de jornais e revistas e publicam livros num ritmo impressionante. Esses (de que JPP é um exemplo) não estão limitados pelos 140 caracteres e têm uma responsabilidade maior, muito maior, no empobrecimento da linguagem do que os adolescentes dos sms.

Olhando para a questão de outra perspetiva: JPP compara um jovem que escreve um sms ou um comunicador contemporâneo, que alimenta o mundo com uns tuítes, com os escritores clássicos da nossa Literatura (citando JPP: "Escritores como Vieira, Bernardes, Camilo, Eça e Aquilino, levaram-na [a língua portuguesa] tão longe, que em português tudo se pode dizer, todas as infinitas flutuações das pessoas encontram uma ágil palavra para as designar"). Ora, poderia ter comparado com alguns outros, também grandes, que com menos de 140 caracteres disseram um mundo de coisas. Ora veja, JPP.
No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.
(Balança, Eugénio de Andrade)
Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
as lágrimas são minhas
mas o choro não é meu.
(Gota de água, António Gedeão)
Errantes as palavras, as janelas,
respiração à flor do mar no côncavo da arca,
ombro imenso que não encerra, todo o espaço
como um só corpo onde o vento começa.
(A respiração do mar, António Ramos Rosa)
É pelo branco todo que procuro
Uma raiz de sol por onde arda.
(Tela, Alberto Soares)
No mistério do Sem-Fim,
Equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro.
(Canção mínima, Cecília Meireles)
Etc... Tamanho não é documento.









4 comentários:

  1. Pois, meu caro Artur Costa, mas isso são escritores maiores que têm a noção da "divina proporção" da língua portuguesa, não são "mãezinhas" que, na "literatura actual" portuguesa, são os escritores-sms e tuíteres.
    Não devemos confundir roncos, ainda que inofensivos, com concisão literária, que é coisa de poucos...

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    1. O tempo falará melhor de alguns contemporâneos, a quem eu também não reconheço génio. Mas Camilo e Eça começaram nas crónicas trauliteiras em jornais, escreveram folhetins...
      Nem eu confundo as coisas. O que quero dizer é mesmo que tamanho não é documento. Não há tuítes a mais; há é cronistas que escrevem sempre sobre o mesmo, da mesma maneira, e de quando em quando resolvem armar-se em engraçadinhos e vão ao dicionário buscar umas palavras novas.

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    2. Corei, há momentos...E pode não acreditar, porque li à pressa os poemas que citava, retendo apenas os nomes do Eugénio e da Cecília Meireles. E esses sim, considero-os maiores. Longe de mim querer ser juiz em causa própria. Nunca terei essa arrogância.
      (Para memória futura: tenho que ler com mais cuidado e atenção os seus postes.)

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    3. É uma boa decisão. O linguado é peixe de águas profundas. Não é possível pescá-lo sem um pouco de paciência e atenção.
      Quanto ao resto, pois cada um acha Bom o que acha, sem comprometer ninguém; e ficamos por aqui.

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