quarta-feira, 24 de junho de 2015

Uma história edificante


Uma reunião da CPLP terminou numa ata "bilingue", porque os delegados, após uma discussão acalorada, concordaram em escrever algumas palavras nas ortografias antes e depois do AO'90. A história vem aqui. E é edificante, como pode ver-se por estes pequenos excertos.
Exigências de Angola e Moçambique sobre o Acordo Ortográfico (AO) obrigaram à alteração da ata final da XIV Conferência dos Ministros da Justiça da CPLP, em Díli, para incluir, ao longo de todo o texto, as duas grafias.
A solução, proposta pelo ministro da Justiça de Cabo Verde, foi necessária para evitar a alternativa defendida inicialmente pelos representantes de Angola e Moçambique: duas atas, uma na grafia do AO e outra na grafia pré-AO.
Essa posição foi rejeitada por Portugal, Cabo Verde, Brasil e São Tomé e Príncipe, que consideraram que essa alternativa não faria sentido numa comunidade que fala a mesma língua, sendo prejudicial porque daria 'armas' aos que contestam a CPLP.
O representante do secretariado executivo da CPLP recordou, por seu lado, que o critério usado até aqui nas cimeiras de Chefes de Estado e de Governo e nos encontros setoriais da comunidade tem sido de recorrer à grafia usada no país onde decorre a reunião.
Nesse caso, e a manter-se esse critério, a ata final da reunião de Díli seria feita com a grafia do AO, que já foi ratificado por Timor-Leste.
O debate começou quando estava para ser lida a ata final, tendo o secretário de Estado dos Direitos Humanos angolano, António Bento Bembe, afirmado que Angola ainda não tinha ratificado o AO, questionando por isso o seu uso no texto.
Em primeiro lugar, ficamos a saber que, afinal, Portugal, Brasil, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Timor-Leste já usam a ortografia do novo Acordo, apesar dos influentes opinion makers que nos continuam a dizer que não. Mentirosos.

Mas o verdadeiramente insólito é que um secretário de Estado de Angola, usando aquele peculiar sentido de democracia do governo angolano (não respeitando as práticas anteriormente concertadas entre todos os países), acabe por impor uma solução singular, justificando-a de uma forma algo primária. Ele, o seu confrade ministro de Moçambique e o representante da Guiné-Bissau, certamente tecnocratas de grande valor, lançaram-se em considerações sobre a língua e a ortografia, das quais destaco estas duas:
"A questão aqui não é como falamos, mas como escrevemos. Quando a forma ortográfica muda, as palavras não significam a mesma coisa (...) Uma vez que se chega a este acordo na base do consenso, não posso assinar este documento que não está escrito da forma que se fala em Angola. Camões não escreveu assim."
O senhor da Guiné-Bissau chegou a dissertar sobre a palavra "ata" poder suscitar uma interpretação alternativa "de atar pessoas".

A estes senhores alguém devia dizer que o significado das palavras, em muitos e muitos casos, apenas pode ser determinado pelo contexto, pela compreensão de toda a frase. Por exemplo, ata também é o nome de um fruto, por vezes chamado fruta-de-conde. Vai ser cá uma confusão, sempre que no cimo de uma página alguém vir escrita a palavra ata e a seguir começar a ler "Aos dezoito dias do mês de junho..."! Será fruta? Será um convite a práticas SM? E porquê apenas a "atar pessoas", não poderá ser atar outra coisa qualquer (José ata o saco das atas. Que cheirinho bom!)? Além disso, a palavra ata já se escrevia assim no Brasil, e foi usada nas atas de todos os encontros da CPLP que se realizaram, até hoje, nesse país. Andavam distraídos, senhores delegados?

Mais extraordinário é que o senhor secretário de Estado de Angola termine com aquele lapidar "Camões não escreveu assim". Pois não, senhor secretário de Estado de Angola, mas se acha que a diferença entre o que Camões escreveu e o que os senhores delegados escrevem está na ortografia... Camões foi Grande porque escreveu sobre o que escreveu de uma forma inultrapassável - no vocabulário, no ritmo, na sintaxe, na imaginação, na riqueza da sua cultura e da sua linguagem. Não porque escrevesse "Occidental praya Lusitana" com dois "cc" e "y". Podia ter escrito "Ocidental praia Lusitana" que não alterava nada - exceto talvez na compreensão por parte dos seus contemporâneos, que ficariam estupefactos pela ligeireza com que o Poeta modernizava as palavras... A diferença, senhor indivíduo de grande vaidade mas cabeça pequena, é que Camões escrevia o Mundo, o Povo e os Homens, enquanto você debita umas imbecilidades para uma ata. E aí não há consoante que o salve da sua pequenez.


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