domingo, 8 de dezembro de 2013

Não Tal

É, com certeza, uma coincidência que eu tenha começado a noite de ontem a vociferar contra a caricatura do consumismo desenfreado, essa febre de último grau, que atinge pela época natalícia a tal "classe média" que não existe, passa fome e manda os filhos sem sapatos para a escola, cujo ar condicionado, por razões de cortes cegos na despesa, só está ligado durante metade de dia.

Coincidência (ou a Mão Invisível?) porque, à noite, fui assistir ao habitual Concerto Coral Sinfónico de Natal, na Igreja da Lapa, no Porto, cujo programa era composto por duas obras em primeira audição mundial:
Sara Braga Simões, soprano
Maria Luísa Freitas, mezzo-soprano
Mário João Alves, tenor
Valter Correia Mateus, baixo
Coro Polifónico da Lapa
Orquestra Sine Nomine

Direção: Filipe Veríssimo 
1.ª Parte
Fernando Cupertino
Missa Brevis "in honorem Beatissimae Virginis Maria" 
2ª Parte
Jorge Prendas
Cantata de Natal
A peça do brasileiro Cupertino, que aliás estava presente, é o que se pode esperar de uma obra para estas ocasiões: assumidamente litúrgica, harmoniosa, pontuada pela intensidade que convida à oração.
Mas a segunda obra, a cantata do portuense Jorge Prendas (um dos fundadores do quinteto a cappella Vozes da Rádio, que todos conhecemos), fugiu à regra - e de forma bem evidente.
No folheto que nos distribuíram, o autor explica a sua obra, escrita como um conjunto de comentários pessoais, religiosos, simbólicos ou profanos, à época do Natal. Os vários troços de música coral, harmoniosa, são quebrados por intermezzos em que a orquestra toca trechos abstratos, sem melodia, e o coro se dedica a momentos de quase-improviso, manifestamente inadequados à harmonia e beatitude da quadra natalícia.
Será? Não, pelo contrário, um destes intermezzos é uma fiel reprodução do horror em que a maior parte dos portugueses transformou o Natal (e, creio, também outros povos igualmente afetados pela grave crise material o fizeram).
Leia-se o que Jorge Prendas escreveu (bem acompanhado, diga-se de passagem, por Elliott, Drummond e Gedeão).



All I want for Christmas!
Want!
(Tudo o que quero para o Natal!
Quero!)

4 comentários:

  1. presságio de carta no seu correio.
    Espero que além de toda a análise pragmática se tenha deixado transcender pelo som :)

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  2. Sim. Senti-me elevado às alturas. Depois de um começo e um intervalo dignos do melhor cinema italiano.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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    Respostas
    1. Não entendi, mas tudo bem caso AC não consiga explicar. Um dia eu "chego lá", caso seja necessário.

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