quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Very typical

É sabido que em Portugal tudo depende do Estado, do governo, dos políticos, dos altos funcionários e, vá lá, de Deus.
Quem pensa o contrário, que as famílias, os vizinhos, os artistas, as empresas, as associações e cada um de nós, devem ter o papel principal, é chamado, com desprezo, um neoliberal. Um porco.
Penso que é assim porque nos sossega: a responsabilidade por fazer, e talvez falhar, não é nossa. Basta-nos lamentar, insultar, culpar, indignar.
Do alto da nossa imensa superioridade moral e intelectual. Respaldados na nossa inocência.

Vem isto a propósito da crise que algumas instituições públicas de Lisboa estão a passar. Incapazes de demonstrar a sua utilidade, afundam-se, como é natural. Alguns responsáveis demitem-se.
Daí a clamar-se pela "morte do cinema" vai um passo que só os medíocres podem dar.

In: Público, 13 novembro 2013

Nos últimos anos, talvez obrigado a sair da casca porque não há peanuts do Estado para distribuir, o cinema português conseguiu muitos sucessos, de público e de crítica. E de reconhecimento internacional - como nunca teve, à exceção do glorioso Manoel de Oliveira.

Foi e é difícil? Com certeza.

Mas o facto de serem financiados por publicidade, por mecenas ou (e sobretudo) pelo público faz deles sub-produtos culturais, obras "menos portuguesas"? Não me parece.

O "cinema" (português) é uma entidade abstrata e complexa.

O cinema devem ser os filmes, os realizadores, os produtores, os espetadores. Até, embora me custe admiti-lo, as pipocas.
Deve ser também, claro, a memória dos cinéfilos e o património de um povo.
Deve ser livre.

O que não deve ser: um conjunto de burocratas que vão a umas festas e distribuem uns dinheiros. Para isso, há softwares informáticos muito baratos.
O que também não deve ser, nem deve ter: uma "tutela".

Preocupem-se com o estado do setor. Mas não confundam com o setor do Estado.
Queremos uma cinemateca, sim. Mas não esta.


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