terça-feira, 19 de novembro de 2013

Seleção natural

Jornal de Notícias
Hoje conto-vos uma pequena parábola futebolística, dedicada à seleção nacional de futebol, que espero perca com a Suécia no mata-mata de logo. De que outra chamada à realidade precisa um país em que se acredita que o não apuramento para o Mundial representa a "perda" de 400 milhões de euros para a economia.
Pode perder-se o que ainda não se ganhou?

Como sabemos, para a mentalidade portuguesa, isso é possível. Aliás, é o nosso modo de vida ancestral.
Bill Watterson / Universal Press Syndicate
A derrota será uma muito necessária lição, à moda do pai do Calvin, que nos ajudará a construir o caráter.

Ao contrário da que vos conto, esta relação dos portugueses com a bola é uma história sem moral...

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Tó-Man-É Cró-Náhal, da tribo dos Tugas, eram dois homens muito diferentes, apesar de serem grandes amigos.

Tó-Man-É era um homem normal, muito esforçado. Nas demonstrações de perícia, fosse nos jogos que praticavam nos momentos de lazer ou na caça aos tordos com fisga, tinha uma grande margem de erro nas primeiras tentativas. Mas continuava a tentar, praticava dia após dia, chegava a treinar à noite. Ia melhorando e, ao fim de um certo tempo, tornava-se confiável. Os outros consideravam-no aborrecido e nunca lhe davam o mérito que talvez merecesse.
Pelo contrário, Cró-Náhal era um artista. Na caça e na pesca, nas festas e nas guerras, dava um passo à frente dos outros, olhava em volta e atacava. Zás!, acertava o primeiro golpe, e mirava os que o rodeavam, virando as costas à cena, não se preocupando com o que se passava a seguir. Na maior parte das vezes deixava os companheiro, que tinham de completar o trabalho, em maus lençóis. Especialmente Tó-Man-É, que sempre vinha em sua proteção. Mas a tribo adorava Cró-Náhal e os olhos de todos estavam sempre nele. E Cró-Náhal era, apesar da vaidade, um rapaz de bom caráter.

Um dia, na caça ao urso, encurralaram dois machos cinzentos, dois colossos. Os animais, cercados e desesperados, investiram contra a horda de aguerridos caçadores, que se dispersou pelos rochedos em volta, por não saber como reagir à situação invulgar. Ficaram Tó-Man-É Cró-Náhal a confrontar as bestas.

Cró-Náhal atacou, rodopiou, esquivou-se ao abraço mortal e, numa revienga, espetou a lança no cachaço de um dos ursos. Caiu com suavidade, levantou a cabeça e ergueu os braços, em sinal de triunfo.
Tó-Man-É, pouco habituado àquela modalidade de caça, falhou o seu golpe e foi trucidado pelo animal, que lhe abriu o peito com as garras num único e largo golpe da poderosa pata.
Com Tó-Man-É a seus pés, praticamente sem parar a sua marcha, o urso avançou sobre o desprevenido Cró-Náhal.

O dia ficou na história da tribo como aquele em que morreu um herói e se perdeu um animal que teria dado carne, ossos e peles, de que todos estavam necessitados. Cró-Náhal foi profusamente chorado, enquanto a memória de Tó-Man-É, o incapaz que não conseguiu matar o urso, se perdeu na noite dos tempos.

8 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Há ursos mais ferozes do que outros.

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    2. Danado!!! Não é capaz de dar o braço a torcer.....

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    3. Cito-me: Cró-Náhal era, apesar da vaidade, um rapaz de bom caráter.
      Mas não me revejo em ídolos nacionais de chuteiras nem em artistas geniais como salvadores da Pátria. Ser artista é ser egoísta. Os heróis deviam ser os que trabalham sem querer a glória, mas sim pelo trabalho bem feito.
      Como os suecos: http://desporto.sapo.pt/futebol/mundial/brasil_2014/artigo/2013/11/14/su_cia_goleia_portugal_na_hist_r.html
      Portugal é a terra dos CR7, das Joanas Vasconcelos, dos Gatos Fedorentos. E das dívidas.

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    4. Inevitável a glória e o insuflar do ego de quem muito fez (trabalhou) para lá chegar ...(refiro-me ao jogo de hoje onde vi um jogador a correr e à procura de fazer as delícias de um povo...que não se alimenta de golos mas de alegrias vindas pelas vitórias das suas gentes). Quanto ao egoísmo ...hmm pois deve estar relacionada com a história particular que citou...nada mais

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    5. Discordo da dureza "A derrota será uma muito necessária lição,..., que nos ajudará a construir o caráter."
      Para mim o consequencialismo só se alimenta de lições que nos proporcionem bem estar... acontece acharmos o oposto devido a esses sucessos serem por vezes alcançados por reflexos condicionados após ..um desaire...Mas foi o "bom" que nos marcou, e não o "mau".

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    6. A teoria do "big bites build character" é do pai do Calvin, não é minha.

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