terça-feira, 12 de novembro de 2013

Bran Ruz e os Barretes Vermelhos

AOS ALUNOS das ESCOLAS
É PROIBIDO
1.º Falar bretão e cuspir no chão
(...)
Leio em alguns jornais que há uma revolta na Bretanha. Foi a introdução de portagens "ecológicas" nas autoestradas que fez transbordar o copo.
Escreve Daniel Ribeiro, no Expresso:
Revolta dos "barretes vermelhos" alastra em França
Nos bares de Quimper, nesta noite de sábado, bebe-se bem, ouve-se música irlandesa, fala-se muito mal dos franceses e viola-se ostensivamente a lei, fumando-se em todo o lado. "A Bretanha ainda não é livre mas, calhando, vai sê-lo em breve!", garante um bretão.
(...)
Na Finisterra, o departamento mais ocidental e que na realidade é a "Bretanha profunda", volta a falar-se de independência, tal como no passado quando existia na região um grupo radical "independentista ("Frente de Libertação da Bretanha") que conseguiu impor a Paris, pela força e a violência , nos anos 1960/70, diversas reivindicações, entre elas o ensino oficial da língua bretã nas escolas da região.
E, noutro artigo do mesmo jornalista:
Ex-mulher de Hollande é heroína dos "barretes vermelhos"
A revolta dos "barretes vermelhos" contra a "ecotaxa", que começou na Finisterra e alastrou a seguir ao resto do país, ganha todos os dias mais adeptos e, hoje, recebeu o inesperado apoio de Ségolène Royal, ex-mulher do presidente François Hollande e mãe dos seus quatro filhos. Ségolène considerou "reconfortante" um movimento que se está a transformar num verdadeiro problema para o poder socialista.
"Não gosto de povos apáticos", explica Ségolène Royal 
O apoio da antiga candidata socialista às presidenciais francesas aos "barretes vermelhos", que também foram "compreendidos" por Anne Hidalgo, candidata do PS à Câmara de Paris, foi bem recebido na Bretanha. "Ségolène é diferente de Hollande, a revolução está em andamento e, de momento, pelo menos, é certo que vamos fazer cair este Governo", diz esta noite, ao Expresso, em Quimper, capital do departamento da Finisterra, um "barrete vermelho".
O movimento, cada vez mais radicalizado, é heteróclita - reúne bretões de todas as classes, do patronato empresarial aos assalariados e aos comerciantes, e de todas as cores politicas, da extrema-esquerda à extrema-direita.
Um pretexto para recordar Bran Ruz.

Bran Ruz é um romance gráfico escrito por Alain Deschamps e desenhado por Claude Auclair. Esta banda desenhada épica, com quase 200 páginas a preto e branco, foi publicada em catorze capítulos, entre 1978 e 1981 na revista (A Suivre) e em álbum, pela Casterman, em 1981.
Conta a vida de Bran Ruz (Corvo Vermelho) e a lenda da cidade de Ys (ou Is). O Rei de Ys, Gradlon, não perdoa a Bran Ruz e à sua filha, a bela Dahud, a arrebatadora paixão da juventude.
Auclair/Deschamps. Ed. Casterman.
Dahud acaba assassinada e Gradlon envelhece consumido pelos remorsos. Ys, a cidade devassa, desaba, submersa pelas águas do mar e levando consigo o revoltado Bran Ruz, no lugar que hoje se chama a Baía dos Trespassados.

(Os desenhos são soberbos, mas o argumento é a habitual montanha russa das obras, a solo ou em parceria, de Claude Auclair: bucolismo, grandiosidade e palavrosas páginas com lições de moral aos que não alinham pelos mesmos ideais...).

Auclair/Deschamps. Ed. Casterman.
Mas a narrativa é também um pretexto para falar da alma do Povo Bretão (Breizh) e da sua opressão pelo Estado francês, de que o edital que abre este texto é um símbolo extraordinário.

Como nos conta Jean Markale, "Um dia, quando as injustiças que dominam o mundo já não afligirem os seres humanos e a sociedade for realmente sem classes, a cidade de Ys reaparecerá, triunfante" (...) "Os Bretões esperam há muito tempo o regresso do Rei Artur, adormecido na ilha maravilhosa de Avalon. Mas também esperam que Dahud, segurando a mão de Bran Ruz, lhes abra a porta dessa nova cidade de Ys".

Auclair/Deschamps. Ed. Casterman.
Estará Ys a emergir das águas do mar, por estes dias, na mágica Bretanha? Duvido muito. É que Ségolène Royal parece-se mais com uma oportunista sem grandeza, cavalgando a decadência do seu ex-marido, do que uma altiva e nobre Dahud com a chave que todos esperamos.


2 comentários:

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